sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Só numa multidão de amores (Verônica H.)

Eles não estavam trocando juras de amor, não andavam de mãos dadas, nem se chamavam por nomes infantis. Não tinha pieguice romântica ali. Mas foi a cena mais doce que eu vi: dois olhares se encontrando. Não só se encontrando: se confortando, se sabendo, se completando. Eu notei que eles eram algo além de amigos, que se desejavam e se protegiam, e foi só pela cumplicidade dos olhos, que deixavam de ser dois e se enlaçavam quatro.
Eu quis então ter um olhar pra mim. Não alguém pra chamar de meu, como diz o clichê, como grita a conveniência, mas um olhar que fosse meu por puro encaixe. Foi um pouco de inveja, talvez. Eu soube naquelas duas pessoas que elas não se sentiam sozinhas ou perdidas. Que mesmo depois de um dia cheio e chato, tinham uma certeza de carinho. E eu quis. Quis algo além da rotina do trabalho e gente fabricada com seus narizes perfeitos e cabelos penteados. Quis algo certo como o frio na barriga e a respiração travada, o coração esquecendo de bater. Quis algo errado que me fizesse bem só por escapar do caminho óbvio de toda noite. Uma espera no fim do dia, sabe? Essa espera. Não a espera de uma vida toda sem saber o que buscar pra ser feliz. Só sair do dia igual pra ter uma noite diferente. E tornar esse diferente comum só porque é bom estar perto.
Todo o amor que eu sufoquei por excesso de razão agora grita, escapa, transborda. Estou só numa multidão de amores, assim como Dylan Thomas, assim como Maysa, assim como milhões de pessoas; assim como a multidão de amores está só, em si. Demonstro minha fragilidade, meu desamparo. Eu não procuro alguém pra pentencer e ter posse, só quero uma fonte segura de amor que não dependa das obrigações, das falas decoradas, dos scripts prontos. Eu sei que eu abri mão de várias oportunidades. Sei que fiz pouco caso do amor que me entregaram de maneira pura e gratuita, só porque eu achava que podia encontrar coisa melhor. Se as pessoas estão sempre indo e vindo, eu só queria alguém minimamente eterno em sua duração, que me fizesse parar de achar normal essa história de perder as pessoas pela vida.
Vou embora querendo alguém que me diga pra ficar. Estou sempre de partida, malas feitas, portas trancadas, chave em punho. No fundo eu quero dizer "Me impede de ir. Fica parado na minha frente e fala que eu tenho lugar por aqui, que não preciso abandonar tudo cada vez que a solidão me derruba. Me ajuda a levar a vida menos a sério, porque é só vida, afinal." E acabo calada, porque não faz sentido dizer tudo isso sem ter pra quem.
Eu não quero viver como se sobrevivesse a cada dia que passo sozinha. Não quero andar como se procurasse meu complemento em cada olhar vago. Eu acho que mereço mais que isso por tudo o que eu sei que posso fazer por alguém. E fico só esperando, na surpresa do dia que eu desencanar de esperar, um par de olhos que me faça ficar sem nenhuma palavra, nada além de dois olhos se enlaçando quatro. Nessa multidão de amores, sozinho é aquele que não espera.


:Esse é pra você, só porque eu sei que você ainda lê. Você me deve mais do que isso. Ainda falta aquele final feliz.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pois é (Los Hermanos)

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar o viver
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sei mas atrás vou até onde eu consegui
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Assinado eu (Tiê)


Já faz um tempo
Que eu queria te escrever um som
Passado o passado,
Acho que eu mesma esqueci o tom
Mas sinto que
Eu te devo sempre alguma explicação.
Parece inaceitável a minha decisão.
Eu sei.
Da primeira vez,
Quem sugeriu,
Eu sei, eu sei, fui eu.
Da segunda
Quem fingiu que não estava ali,
Também fui eu.
Mas em toda a história,
É nossa obrigação saber seguir em frente,
Seja lá qual direção.
Eu sei.
Tanta afinidade assim, eu sei que só pode ser bom.
Mas se é contrário,
É ruim, pesado
E eu não acho bom.
Eu fico esperando o dia que você
Me aceite como amiga,
Ainda vou te convencer.
Eu sei.
E te peço,
Me perdoa,
Me desculpa que eu não fui sua namorada,
Pois fiquei atordoada,
Faltou o ar,
Faltou o ar.
Me despeço dessa história
E concluo: a gente segue a direção
Que o nosso próprio coração mandar,
E foi pra lá, e foi pra lá.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cicatrizes

Olhei pra ela esperando encontrar o sorriso estampado, rasgado no rosto sincero que costumava ter, encontrei um olhar ansioso por algo que agora dificilmente eu via acontecer. Ela que gostava de um mimo, um gesto, um dengo, um jeito carente que ele proporcionava, apareceu com um outro, meio brinquedo de exibição, parado no tempo e no espaço, meio lindo ao mesmo tempo torto, estranho e até um pouco desconfiado. Ela o olha sem ância, parece passivo. Não fluía mais a brisa suave que conectava os lábios. Era meio que ímã esse novo contato, mas ao contrário da bela união de opostos aparentava mais a repelência de ambos os lados. Agora iguais. As palavras dela mudaram da maciez de um amor, para o viver o agora, e o amanhã que tanto estimulava ambos, dessa vez ousou ir embora.
Parece que ela ainda espera que ele volte, se redima do erro, assuma a angustia dos dois e tudo volte a ser assim: intenso. Eles eram diferentes, de sintonia harmoniosa, brigas constantes e abraços afogados de desejo. Costumávamos presenciar os encontros tão cheios dele e dela, preenchendo o ambiente com presença, perfume e certo sarcasmo.
Comentamos de vez em quando o quanto parece estranho realmente o que ela se tornou, o nome dele aparenta incomodar, dói fundo. Ela se retorce na cadeira quando tocamos no assunto, vira indiscretamente pro lado. Não consegue conter, espera que ele esteja lá, de novo, sozinho e triste por não tê-la. Lembro do sumiço que ele deu. Proposital, não querer vê-la novamente foi usado como solução. Minimiza a dor num bar, numa banda, num copo de líquido, contanto que tenha álcool, afogar a mágoa, afogar ele mesmo pra não precisar sentir tanto apreço por alguém que não mais te convém.
Agora tudo muda, entre amigos, inimigos e entre todos nós. Policiamos-nos de vez em quando pra não magoar ninguém, mas até assim parece inevitável. Nossa presença já é o bastante. É recordação. Cada um de nós machuca um pouco a ferida de cada um dos dois.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Uma história boba de dois bobos


"Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que “desse certo”, caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias."

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O fantástico mundo de Bob (Taíse Marques)


“Sabe quando a gente tá muito feliz, muito feliz que dá até vontade de chorar? Pronto, eu tô me sentindo assim.” Mas é assim, do meu jeito. Não do jeito dele.
É uma felicidade que é minha, mas por você. É uma felicidade ainda maior, porque tem que ser dividida por dois. Por três. Por muita gente. É uma felicidade tão grande que dá pra ver na cara, toda hora. É uma felicidade que faz ficar com as bochechas doendo de tanto sorrir. É uma felicidade que antes de ser minha é sua! Você sabe do que eu tô falando.
Sabe que muitas vezes é mais importante saber que você tá feliz, porque você é um pouquinho egoísta, mas me deixa participar dessas histórias. Me deixa saber como é sentir essas coisas, e falar dessas coisas, e viver essas coisas. E que coisas!
É tão bom, mas tão bom mesmo, que chega a ser chato. Chega a ser sem graça de tanto que é grandioso e bonito. E leve. E simples.
Eu sei que é difícil de acreditar. É difícil acreditar que você o tem e pode tê-lo, por quanto tempo quiser. É difícil acreditar porque você quer e tem. Que tem muito e ainda pode ter tudo. Tudo que você quer e precisa. Por isso você vai acreditar nisso e nesse. E ele vai ser aquele, sabe? É dele que você tem que dizer “é esse!”. Faça-o também acreditar. Acreditar em você e nesse sentimento, que e é tão grande, que você nem precisa dizer. Não precisa porque ele diz por ele e por você. E pra você! Há quanto tempo você não tinha isso assim? Assim desse jeito. Assim novo. Assim bom. Assim limpinho, ou quase. Assim cheiroso.
Ele é um menino de ouro. Que tem olhinhos que brilham. E que te faz brilhar também! Que te deixa mais mulher, mais bonita. Mais do seu jeito que é só seu. E agora dele também. Você é agora ainda mais fantástica. Você agora, minha amiga, faz parte do mundo do Bob, que assim como seu mundo é fantástico também. Sabe aquelas coisas que você achava que eram impossíveis? Que nunca iriam acontecer? Esqueça. Nesse mundo tudo acontece. É nesse mundo que você tem que viver. É esse o seu mundo.
Deixa se amar, se gostar. Deixa receber carinhos e elogios. Deixa ser mimada. Deixa ser feliz, menina. Deixa sorrir largo. Rir alto. Deixa tudo. Deixa-o cuidar de você. Deixe-se ser boa. Seja boazinha com ele. Você sabe o quanto isso é bom. Você não é BOBinha, que eu sei!
Ele mexe com ouro. Ele sabe lidar com jóias. Ele vai cuidar bem de você. Eu sei disso. E você sabe que eu sei!

Para uma amiga minha que é uma jóia, que tem um menino de ouro e um mundo fantástico!

sábado, 7 de agosto de 2010

O que eu quero de você (Milly Lacombe)


Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.

P.S.: O primeiro livro sobre você, o segundo livro sobre mim. O terceiro, sobre nós dois.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eu gosto (Caio F.)


Olha, fique em silêncio. Eu gosto do teu silêncio. Mas também gosto de tuas palavras - acredite. Mas não vim aqui para te falar de ruídos - ou não - , estou aqui para te falar de céu, mar, estrelas e tapioca - como naquele dia, lembra? - Ontem por incrível que pareça todos os lugares que pisei eu te procurei. Teus rastros ficaram por lá. O balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti.

P.S.: Reendereçado *-*

sábado, 31 de julho de 2010

Para um menino com uma flor (Tati B.)


Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando encontrar a parte mais quente das suas costas. Ainda estou com este riso BOBo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente.
Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões.
Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com a parte mais quente das suas costas e com o seu jeito de se desculpar por falar demais, você acaba de me salvar.
Este texto é pra te falar uma coisa BOBa. É pra te pedir que não tenha medo de mim.
E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim.
Eu só queria que esta minha vontade de perdoar o mundo durasse. Hoje eu não odiei nada nem ninguém. Eu apenas fiquei lembrando, a cada segundo. Você quis encontrar meu coração pequenininho no escuro. E você encontrou. E você salvou meu dia, minha semana. E salvar meu dia já são zilhões de quilômetros. Você é meu herói.
Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes.

P.S.: Eu também, moço. Eu também.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Semântica (Gian Fabra)


...
- Só sei que nos amamos muito...
- Porque você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
- Não, eu falei no passado!
- Curioso né? É a mesma conjugação.
- Que língua doida! Quer dizer que NÓS estamos condenamos a amar para sempre?
- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
- Pensar assim me assusta.
- Porque? Você acha isso ruim?
- É que nessas coisas de amor eu sempre dôo demais...
- Você usou o verbo "doer" ou o verbo "doar"?
- [Pausa] Pois é, também dá no mesmo...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Faz de conta (Martha M.)


Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Anotações de um amor urbano (Caio F.)


Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.
Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Amanhã não sei, não sabemos.
Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos e você me beija e você me aperta e você me leva e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. O inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como chamar agora a essa meia dúzia de toques aterrorizados pela possibilidade da peste? (Amor, amor certamente não.) Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça? Não evitaremos. Eu tenho medo, não quero correr riscos, mas agora só existe um jeito e esse jeito é correr o risco. Estou muito cansado. Não faz assim, não diz assim. É muito pouco. Não vai dar certo. Eu tenho medo. Eu não aceito nada, nem me contento com pouco. Eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo.
Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos. Depois me diz: “Vamos embora. Deixe tudo como está. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você."
Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos.
Olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa — gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você.

P.S.: Tô pagando para ver no que vai dar! E assim como você fez, deixei todas as fichas sobre a mesa. Só para não dizerem que eu não tentei. Só para não dizerem que eu não avisei!

sábado, 24 de julho de 2010

O aniversário da cunhada

"Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto."

- Estava com saudade de você. Sério mesmo!
(cri-cri)
- Você já abusou de mim, não foi?!
- AINDA não!
- Ah... AINDA não?! Muito confortante saber disso!
(...)
- Adoro seu beijo - diz Helder com cara de Herlon.
- Eu já parei de dizer. Fiquei com vergonha de tanto já ter dito.
- Mas eu já te expliquei! A gente não diz só pra parecer ser recíproco. A gente diz por que sente e por que quer dizer. Foi por isso que eu disse.
- Eu sei, meu Helder... Então eu também adoro.
- Eu sinto falta de você nas festas. De você e do seu beijo. Sabia que a gente foi eleito o casal do beijo mais inconveniente do São João. Eu não ia dizer não, mas não me agüentei.
- Que bom! Agora eu nem tô com vergonha!

Bolinha dançando comigo e conversando com Helder:
- Vou pegar pra mim.
- Isso é comigo, Bolas?!
- É. Olha o ar que Helder vai pegar... Helder, vou pegar pra mim!
- Sai. Essa aí é in-trans-fe-rí-vel!

A cunhada depois da festa:
- A mulher que casar com esses dois vai ganhar (literalmente) na loteria. Eu já disse a Helder que eu dou um prêmio a quem conseguir conquistar o coração dele por que aquele alí pra se apaixonar... É difícil!

P.S.: Um ano depois e nenhuma palavra sequer.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ele é genial


"Quem é que antes de dormir vai sempre no meu quarto me dar um beijinho?
Quem é que quando eu tenho medo esta sempre ao meu lado não fico sozinho?
Quem é que se às vezes precisa me dar uma bronca fica chateado?
E quem é que sempre me avisa quando vou brincar para tomar cuidado?
Quem é que quando estou doente me pega no colo e me faz um carinho?
E quem é que fica contente quando ve um dez lá no meu caderninho?
Ele me quer bem, ele é genial, ele é meu amigo querido e é muito legal."


P.S.: 68 anos é muito tempo. Feliz aniversário!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Presente ausência (Martha M.)


Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.

P.S.: "And if you really want to know: There was never anybody. I only wanted you."

domingo, 11 de julho de 2010

Jogo da vida


"Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. E se ela se afogar, se recupera."

Prometi que não escreveria. Que deixaria para lá, jogado - como fizestes com o meu amor. Como fizemos um com o outro. E eu até tentei, juro que tentei, mas não consigo, moço. Preciso desabafar. Peço desculpas pela minha ignorância, pela minhas faltas - que foram tantas.
Sabe, eu sinto um vazio profundo. Meu peito tem andado bem apertado ultimamente e meus sentimentos às migalhas por aí em um canto qualquer dessa estrada sem volta. Cheia de lembranças, de cheiros, de gestos, de sorrisos e de abraços - desde aquela última conversa. Sempre que eu fecho os olhos, te vejo indo embora - como se nunca mais fosse voltar. E choro, sempre. Por que não tem sido fácil para mim, moço. Eu sei que esse meu silêncio te angustia e te inibe. Mas essa distância segura que mantenho de ti agora, é só minha velha e boba esperança de uma dia te reencontrar. Para ser sincera, eu estou com muito medo. Medo de que não passe. Medo esse, que não passa nunca. Você está seguindo, não está? Por favor, diga que não. Quando penso que sim sinto os cacos de vidro na minha garganta. E vai ser assim, né? Por um longo tempo só vou ter esse céu de uma tempestade anunciada. Esse nó na garganta. Essa ausência que vou tentar preencher com os livros do único homem que me entende, com textos, músicas e filmes que só servem para mostrar o quanto é deprimente seguir sem ti. E nada de novos amores. Humhum.

- Não menina. Não precisas te desculpares. Não tivemos culpa. Sei que não. Nem tu - menina de olhos d'água -, nem tão pouco eu - moço de sorriso sem brilho - fomos capazes de mudar nossos roteiros. "Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." É assim que funciona e é assim que vai ser sempre. Mas o que eu sinto vai continuar aqui. Vai ficar assim: triste, solitário. Mas vai passar, menina. Sabes que vai passar. Sinto uma angústia que me toma o peito e uma insignificância minha, por não poder fazer nada a respeito, por não saber como te aliviar, por não ter as palavras certas para te cantar e não ter a luz no fim do teu túnel, algo que possa te guiar.

Mas eu preciso. Até tentarei manter a doçura. E como desejei que fosse doce. Repetia sempre, mais de sete vezes. Todas as manhãs. Agora, todas essas linhas serão eternas aqui. Tudo que escrevi para ti vai ficar aqui. Tudo - o que quase fomos - vai ficar aqui. Vai conter cada pedaço de sentimento que eu te entreguei e tu quisestes recusar. Isso foi o que sobrou do nosso "para sempre". E estará para sempre aqui. Não vou esperar que o telefone toque ou que cartas finalmente cheguem como bem sei que tu também não o farás. Eu quis demais de ti, moço. Eu quis declarações, quis palavras. Me joguei desse trem para cair inteira no teu mundo, mas tu não estavas disposto - como tu mesmo me dissestes - nunca estivestes e então dei de cara com apenas os trilhos.

- Te conheço através das tuas palavras mansas e lia nossas histórias nas linhas e entrelinhas narradas por ti. Imagino-te contanto - sempre sorrindo - que haviam novas palavras. Tuas palavras, sempre tão divertidas, tornaram-se ácidas aos meus olhos. Ásperas. Cada linha lida é um punhal recebido nas costas, uns olhos marejados e uma saudade desconhecida. Tu, que sempre me veio vestida de doçura e felicidade; gigante. Coração maior ainda, mesmo com teus disfarces. És tu então, parte de mim já tem tempos e não vejo que nesse mundo de letras de forma não esbarres em mim outra vez. Desde que te conheço em silêncios, fazes parte de todos os meus momentos.

Tu não havias provado o sabor que isso tem antes de me conhecer, moço. E depois... Ah, depois daquele verão, depois daquele carnaval e depois daquela dança, tu sabes. Tu quisestes, eu sei. Por que agora eu tinha conseguido atingir teu coração de moço que não acredita nessas bobagens de amor. E por favor, não me corrija se eu estiver errada. Só quero te dizer que a fé que eu tinha em ti continua aqui. Eu sempre fui uma menina cheia de fé. De esperança. Eu acredito em ti. Eu torço por ti. Eu te quero muito bem e eu vou continuar querendo. Durante os anos, tu vais ver. Vou estar discretamente em lugares estratégicos te aplaudindo. Eu prometo. Eu sempre vou estar lá para te aplaudir. E acredita? Terás muitas ocasiões assim. Eu acredito.
Talvez seja melhor assim. Tenho que conhecer coisas novas. Me encontrar e me perder mais algumas vezes. Tenho que encontrar alguém que sinta tanta falta de mim tanto quando eu sinto de ti. E hoje tu não és esse cara, né? Nem nunca vai ser, eu sei. E para não apagar as boas lembranças eu preciso ir agora. Sozinha. Mas sabes o que me faz sorrir nesse instante? Pensar que tu podes lembrar-se de mim. Mas aí, lembrei que tens a pior memória do mundo. Mas lembrarás dos contos do meu amigo Caio que eu sempre te mandei, por que ele sabe em gênero e número o que eu sinto por ti. E pensando assim, acho que vou ter mais dias difíceis de saudades. E nesses dias terei esperança de que tu também sintas uma saudade incontrolável de mim. Vou sentir tanto a tua falta. Eu não queria ir, eu juro.

- Então me dói de maneiras estranhas essa dor que te rasga. Sinto raiva da vida que te é triste e de tudo que te inibe o sorriso.

Prometo te deixar na região dos meus sentimentos mais nobres. Prometo rezar por ti sempre. Prometo que sempre me lembrarei de ti. E se tu ainda quiseres, a gente toma chá aos 70 anos. Eu sei que eu ainda vou querer. Eu sei que vou continuar a mesma. E tu sabes que vou mudar muito pouco. Mas eu mudaria se tu quisesses.
Difícil dizer adeus, mas um dia eu hei de conseguir. Por que se eu me afogar, eu me recupero - mesmo sem saber nadar.
E sabe de uma coisa? Eu não chorei por ti, bobo. Tu não mereces. Aquelas lágrimas foram por mim, pelo meu amor jogado fora, desperdiçado, pelas apostas que eu fiz e por eu ter perdido todas.

- A mim, sento e rezo. Te peço, menina. Imploro para que o sofrimento não tarde a passar, para que o coração não se esfacele em mais mil pedaços e para que a chuva cesse, deixando o sol te inundar e clarear tuas idéias. Peço que teu sorriso continue estonteante, que tu vejas propósitos além daquilo que te machuca e que a vida se torne mansa. Uma brisa suave, balançando melodia nas folhas secas de um inverno que não começa. Sem clichês, deixo-te meu silêncio. Um respeito ao teu tempo, que se faz necessário. Numa última frase, te digo apenas que passa. Lenta ou rapidamente, passa.

P.S.:"...Se fosse pra te deixar, te deixaria dentro de mim. Se fosse pra te esquecer, te esqueceria só pra lembrar outra vez..."