domingo, 11 de julho de 2010

Jogo da vida


"Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. E se ela se afogar, se recupera."

Prometi que não escreveria. Que deixaria para lá, jogado - como fizestes com o meu amor. Como fizemos um com o outro. E eu até tentei, juro que tentei, mas não consigo, moço. Preciso desabafar. Peço desculpas pela minha ignorância, pela minhas faltas - que foram tantas.
Sabe, eu sinto um vazio profundo. Meu peito tem andado bem apertado ultimamente e meus sentimentos às migalhas por aí em um canto qualquer dessa estrada sem volta. Cheia de lembranças, de cheiros, de gestos, de sorrisos e de abraços - desde aquela última conversa. Sempre que eu fecho os olhos, te vejo indo embora - como se nunca mais fosse voltar. E choro, sempre. Por que não tem sido fácil para mim, moço. Eu sei que esse meu silêncio te angustia e te inibe. Mas essa distância segura que mantenho de ti agora, é só minha velha e boba esperança de uma dia te reencontrar. Para ser sincera, eu estou com muito medo. Medo de que não passe. Medo esse, que não passa nunca. Você está seguindo, não está? Por favor, diga que não. Quando penso que sim sinto os cacos de vidro na minha garganta. E vai ser assim, né? Por um longo tempo só vou ter esse céu de uma tempestade anunciada. Esse nó na garganta. Essa ausência que vou tentar preencher com os livros do único homem que me entende, com textos, músicas e filmes que só servem para mostrar o quanto é deprimente seguir sem ti. E nada de novos amores. Humhum.

- Não menina. Não precisas te desculpares. Não tivemos culpa. Sei que não. Nem tu - menina de olhos d'água -, nem tão pouco eu - moço de sorriso sem brilho - fomos capazes de mudar nossos roteiros. "Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." É assim que funciona e é assim que vai ser sempre. Mas o que eu sinto vai continuar aqui. Vai ficar assim: triste, solitário. Mas vai passar, menina. Sabes que vai passar. Sinto uma angústia que me toma o peito e uma insignificância minha, por não poder fazer nada a respeito, por não saber como te aliviar, por não ter as palavras certas para te cantar e não ter a luz no fim do teu túnel, algo que possa te guiar.

Mas eu preciso. Até tentarei manter a doçura. E como desejei que fosse doce. Repetia sempre, mais de sete vezes. Todas as manhãs. Agora, todas essas linhas serão eternas aqui. Tudo que escrevi para ti vai ficar aqui. Tudo - o que quase fomos - vai ficar aqui. Vai conter cada pedaço de sentimento que eu te entreguei e tu quisestes recusar. Isso foi o que sobrou do nosso "para sempre". E estará para sempre aqui. Não vou esperar que o telefone toque ou que cartas finalmente cheguem como bem sei que tu também não o farás. Eu quis demais de ti, moço. Eu quis declarações, quis palavras. Me joguei desse trem para cair inteira no teu mundo, mas tu não estavas disposto - como tu mesmo me dissestes - nunca estivestes e então dei de cara com apenas os trilhos.

- Te conheço através das tuas palavras mansas e lia nossas histórias nas linhas e entrelinhas narradas por ti. Imagino-te contanto - sempre sorrindo - que haviam novas palavras. Tuas palavras, sempre tão divertidas, tornaram-se ácidas aos meus olhos. Ásperas. Cada linha lida é um punhal recebido nas costas, uns olhos marejados e uma saudade desconhecida. Tu, que sempre me veio vestida de doçura e felicidade; gigante. Coração maior ainda, mesmo com teus disfarces. És tu então, parte de mim já tem tempos e não vejo que nesse mundo de letras de forma não esbarres em mim outra vez. Desde que te conheço em silêncios, fazes parte de todos os meus momentos.

Tu não havias provado o sabor que isso tem antes de me conhecer, moço. E depois... Ah, depois daquele verão, depois daquele carnaval e depois daquela dança, tu sabes. Tu quisestes, eu sei. Por que agora eu tinha conseguido atingir teu coração de moço que não acredita nessas bobagens de amor. E por favor, não me corrija se eu estiver errada. Só quero te dizer que a fé que eu tinha em ti continua aqui. Eu sempre fui uma menina cheia de fé. De esperança. Eu acredito em ti. Eu torço por ti. Eu te quero muito bem e eu vou continuar querendo. Durante os anos, tu vais ver. Vou estar discretamente em lugares estratégicos te aplaudindo. Eu prometo. Eu sempre vou estar lá para te aplaudir. E acredita? Terás muitas ocasiões assim. Eu acredito.
Talvez seja melhor assim. Tenho que conhecer coisas novas. Me encontrar e me perder mais algumas vezes. Tenho que encontrar alguém que sinta tanta falta de mim tanto quando eu sinto de ti. E hoje tu não és esse cara, né? Nem nunca vai ser, eu sei. E para não apagar as boas lembranças eu preciso ir agora. Sozinha. Mas sabes o que me faz sorrir nesse instante? Pensar que tu podes lembrar-se de mim. Mas aí, lembrei que tens a pior memória do mundo. Mas lembrarás dos contos do meu amigo Caio que eu sempre te mandei, por que ele sabe em gênero e número o que eu sinto por ti. E pensando assim, acho que vou ter mais dias difíceis de saudades. E nesses dias terei esperança de que tu também sintas uma saudade incontrolável de mim. Vou sentir tanto a tua falta. Eu não queria ir, eu juro.

- Então me dói de maneiras estranhas essa dor que te rasga. Sinto raiva da vida que te é triste e de tudo que te inibe o sorriso.

Prometo te deixar na região dos meus sentimentos mais nobres. Prometo rezar por ti sempre. Prometo que sempre me lembrarei de ti. E se tu ainda quiseres, a gente toma chá aos 70 anos. Eu sei que eu ainda vou querer. Eu sei que vou continuar a mesma. E tu sabes que vou mudar muito pouco. Mas eu mudaria se tu quisesses.
Difícil dizer adeus, mas um dia eu hei de conseguir. Por que se eu me afogar, eu me recupero - mesmo sem saber nadar.
E sabe de uma coisa? Eu não chorei por ti, bobo. Tu não mereces. Aquelas lágrimas foram por mim, pelo meu amor jogado fora, desperdiçado, pelas apostas que eu fiz e por eu ter perdido todas.

- A mim, sento e rezo. Te peço, menina. Imploro para que o sofrimento não tarde a passar, para que o coração não se esfacele em mais mil pedaços e para que a chuva cesse, deixando o sol te inundar e clarear tuas idéias. Peço que teu sorriso continue estonteante, que tu vejas propósitos além daquilo que te machuca e que a vida se torne mansa. Uma brisa suave, balançando melodia nas folhas secas de um inverno que não começa. Sem clichês, deixo-te meu silêncio. Um respeito ao teu tempo, que se faz necessário. Numa última frase, te digo apenas que passa. Lenta ou rapidamente, passa.

P.S.:"...Se fosse pra te deixar, te deixaria dentro de mim. Se fosse pra te esquecer, te esqueceria só pra lembrar outra vez..."

sábado, 10 de julho de 2010

Vai passar (Caio F.)


Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Não me importo (Fabrício C.)


Não me importo de esperar vinte minutos com a mão na maçaneta enquanto diz que já está pronta para trocar novamente de vestido. Não me importo de esperar dez minutos sozinho no saguão do cinema cumprimentando conhecidos e tentando segurar o refrigerante e os dois baldes de pipoca enquanto vai ao banheiro. Não me importo de esperar chegar em casa para que me diga quem é o amigo que a abraçou efusivamente na festa. Não me importo de esperar três horas na salinha do hospital para saber se a nossa criança nasceu. Não me importo de esperar as longas conversas de sua mãe sobre o meu temperamento. Não me importo de esperar seu corte de cabelo, que sempre envolve pintura, hidratação e escova. Não me importo de esperar a aprovação de suas amigas. Não me importo de esperar nossos filhos regressarem das baladas para me enfurnar em seu cheiro. Não me importo de esperar que tranque as portas antes de tirar o salto. Não me importo de esperar que volte das lojas com as sacolas dentro das outras sacolas para parecer que gastou menos. Não me importo de esperar que faça as pazes com Deus. Não me importo de esperar quando arruma o armário e doa metade das roupas. Não me importo em esperar que encontre a roupa que já deu na semana passada. Não me importo de esperar que o filme acabe para namorar. Não me importo de esperar que devolva as cobertas que rouba para seu lado de noite. Não me importo de esperar você consultar suas mensagens antes de sair. Não me importo de esperar sua irritação em dias de chuva. Não me importo de esperar você nunca me retornar ligações depois das reuniões. Não me importo de esperar que se acorde no domingo, com receio de que fique nublada. Não me importo de esperar que o ciúme desapareça e volte a me ver como se eu fosse somente seu. Não me importo de esperar sua TPM. Não me importo de esperar o melhor momento para viajar. Não me importo de esperar o tempo que precisa para descobrir que me ama. Ou o tempo que precisa para descobrir que não me ama. Não me importo de esperar que venha de repente nossa música no rádio. Não me importo de esperar as revelações de fotografias de sua máquina antiga. Não me importo de esperar o embrulho de um presente. Não me importo de esperar suas discussões de fim de noite. Não me importo de esperar seu beijo de café cortado. Não me importo de esperar sua ressaca depois da dança.
O que desejo dizer é que não precisa se apressar. Nunca chegará atrasada porque sempre estarei a esperando.

P.S.:Presente a gente guarda. Guarda com carinho.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Mel e girassóis (Caio F.)


Encontraram-se porque era mágico e justo encontrarem-se, exatamente nesse ponto, quando o eu vê o outro. Encontraram-se, enfim, e naquele dia olharam-se.
Olharam-se serenos. Apenas a boca cerrada revelava alguma dureza, mas essa boca se abriu assustada quando ele veio e sem querer esbarrou nela.
Foi assim: ela viajando mais longe que aqueles navios cruzando de tardezinha o horizonte, ninguém sabia em direção a onde. Então ele veio, meio tosco, meio selvagem. A moça contraiu-se. A mão dele também contraiu-se, e ficaram os dois se olhando, direto nos olhos, verão a mil.
Sorriram amavelmente um para o outro, fingiram que estava tudo bem. E estava, sério. Ele, para longe. Ela continuou. Indiferentes. Enquanto ele seguia para longe, meio tosco, meio selvagem, ela espiou. Ele seguia para longe dela, uma pedra no meio do caminho, ela pensou, que tinha algumas leituras, sim. Mas uma pedra, supôs, que afastaria com a ponta do sapato.
Encontraram-se novamente na mesma noite. Desta vez foi diferente. Ele demorou-se um pouco mais na frente do espelho. Mas de maneira alguma pensou nela nem em ninguém mais, enquanto se olhava, garanto. Ela não se demorou. Só entregou certa expectativa - naquele momento, honestamente, nem ela saberia de quê.
Encararam-se. Desta vez, foi ela quem esbarrou nele. Ela sorriu, porque tinha esses lances assim, meio provocantes.
Eles de longe, olharam-se distraídos, pediram licença e debruçaram-se um pouco pelas varandas. Depois, delicadamente foram dormir. Sozinhos.
Manhã seguinte, estendendo a toalha, ela espiou por baixo dos Ray Ban’s gatinho em todas as direções, não que procurasse alguém, até localizá-lo, sem planejar, a poucos metros. Um homem, verdade, com certa barriga, nada de grave, mas ombros largos, pernas fortes, mãos na cintura, atrevidamente solitário. Ele olhava para ela, pura coincidência. Ela sorriu. Ele levantou a mão. Ela também levantou a mão. Paradas assim no ar, por um momento as mãos dele e dela diziam qualquer coisa como oi, você aí. Qualquer coisa assim, nada a ver. Que os homens são assim, ela pensou, tão rudes. E teve um arrepio. Foi nesse arrepio que soube.
Ele soube quando o pau ficou mais duro. Enquanto isso, olhavam-se. Ela, por trás dos Ray ban’s gatinho; ele, das sobrancelhas franzidas, das pálpebras apertadas por causa do sol cada vez mais forte. Oblíquos, cada um à sua maneira, começavam a saber.
Ela ia longe, sim - onde escreveria um livro definitivo sobre A Sabedoria Que As Mulheres Ocidentais Conquistaram Depois Da Grande Desilusão De Tudo Inclusive Dos Homens.
De repente, porque algo acontecera no seu campo de visão, abriu os olhos. Por entre duas coxas masculinas, peludas, musculosas, ela olhou para ele: hein?
Ele estava parado ao lado dela. Ele olhava para ela. Quando ele percebeu que ela olhava para ele, flexionou as coxas e foi-se apoiando aos poucos nos próprios pés dobrados, até ficar quase ao nível dela. Meio sem jeito, meio óbvio demais, mas tudo era verão.
Encontraram-se tanto. Meio idiotas, mas tão felizes. Tudo era tão tropical, estavam de férias, morreram de rir, falaram a gente se vê, sem pressa, ao se despedirem.
No começo afastados, depois cada vez mais próximos. Cantaram juntos e ela de repente ficou toda arrepiada, encostou a cabeça no ombro dele. Ele apertou mais forte na cintura dela. E foram assim, rodando meio tontos. Aos poucos descobrindo, localizando, sitiando.
Ele tentava esquecer uma mulher. Conforme o uísque diminuía na garrafa, ele repetia como-amei-aquela-mulher-nunca-mais-nunca-mais, enquanto ela sentia algum ódio, mas não dizia nada, toda madura repetindo isso-passa-questão-de-tempo-tudo-bem. Para espanto dele, ela falou o nome daquele homem de antes, de outros também, nenhum presta - e ele também sentiu certo ódio, nada de grave, normal, tempos modernos, mero confronto de descornos. Falaram então sobre as paixões, os enganos, as carências e todas essas coisas que acontecem no coração da gente e tudo, e nada. Dançaram de novo. Ele achava tão bom debruçar o rosto naquela curva do pescoço dela. Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido debruçado desse jeito no pescoço dela, um homem tão abandonado e limpinho cheirando não sabia ainda se a Paco Rabanne? Cheiro de homem direito. Afinal, estavam de férias. E livres. Ela deixou que a mão dele descesse até abaixo da cintura dela. E numa batida mais forte da percussão, num rodopio, girando juntos, ela pediu:
- Deixa eu cuidar de você.
Ele disse:
- Deixo.
Assim foram pelos dias, que não eram muitos mais. Caminhavam descalços na areia, à noite, à beira-mar - juro. Devagar, as mãos se tocavam: a tua é tão longa, a tua tão quadrada. Ele não queria entrar noutra história, porque doía. Ela não queria entrar noutra história, porque doía. Ela tinha assumido seu destino de Mulher Totalmente Liberada Porém Profundamente Incompreendida E Aceitava A Solidão Inevitável. Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de Homem Independente Que Não Necessita Mais Dessas Bobagens De Amor. Caminhavam assim, lembrando, juntos. Tão bom encontrar você.
Beijavam-se depois com certa ardência excessiva. A lua era tão cheia, eles não eram tímidos. Ele a achava tão digna e superior, ela o achava tão elegante e respeitador. E pensavam:
Isto é uma historinha de férias, não leva a nada, passatempo. Se ele tivesse amigos por ali, diriam come essa mina logo, cê tá marcando, cara. Se ela tivesse amigas ali, discutiriam cheiros, volumes, investigariam saldos no talão de cheques. Sem ninguém, na real: ele a deixava ou ela o deixava. Era só, depois iam dormir. Então sonhavam um com o outro no escuro.
Enquanto digo: minha esposa, amiga, puta, namorada - te quero. Enquanto digo: meu marido, amigo, macho, príncipe encantado - te quero.
Correram juntos pela praia sem falar nada. Mas tudo em qualquer movimento dizia que pena, baby, o verão acabou. Nenhum laço, alguma segurança, pura liberdade. Maduros, prontos. À espera.
Ela falou que bom encontrar você no meio de gente tão medíocre, ele sorriu envaidecido. Ele disse nunca pensei encontrar uma mulher como você num lugar como este, ela sorriu lisonjeada. Ele esticou a perna, o pé dele ficou bem ao lado do pé dela. Como por acaso, o pé dele debruçou sobre o pé dela. Ela deixou - último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end - sem happy? Ela suspeitou que ele a achava uma coroa meio chata porque afinal, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais. Ele suspeitou que ela o achava um cara inteiramente careta porque, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais.
Eles se olharam com tanta suspeita e compreensão. Mas era o último dia, puro verão, e não estavam nem um pouco a fim um do outro, que pena.
Dançaram, sempre dançavam. Quase não disseram nada. Eu sou uma mulher tão sozinha, ela disse de repente. Eu sou um homem tão sozinho, ele disse de repente.
Apertaram-se tanto um contra o outro, sem nenhuma intenção, só enlevo mesmo. Eles eram tão caretas e carentes, eles estavam tão perdidos no meio daquela fantasia que já ia acabar. Ela era só uma moça querendo escrever um livro e ele era só um moço, mas se realimentando um do outro para. Para quê? Eles pareciam não ter a menor idéia.
O cheiro dele era tão bom nas mãos dela quando ela ia deitar, sem ele. O cheiro dela era tão bom nas mãos dele quando ele ia deitar, sem ela. O corpo dela se amoldava tão bem ao dele, quando dançavam. Ele gostava. Ela gostava quando, depois de muito tempo calada, ele pegava no seu queixo perguntando - o que foi? Ele gostava quando ela dizia sabe, nunca tive um papo com outro cara assim que nem tenho com você. Ela gostava quando ele a abraçava e a fazia deitar a cabeça no ombro dele para olhar longe, no horizonte do mar, até que tudo passasse, e tudo passava assim desse jeito. Ele gostava tanto quando ela passava as mãos nos cabelos da nuca dele, aqueles meio crespos, e dizia bobo, você não passa de um menino bobo.
Como nas outras noites, ele a deixou na porta, pela última vez. Mas diferente das outras noites, ela o convidou para entrar. Ele entrou. Ela parecia de repente muito segura. Ele aceitou, só um pouquinho. Ele fechou os olhos, ela fechou os olhos. Ficaram rodando, olhos fechados. Muito tempo, rodando ali sem parar.
Ele disse:
- Eu não vou me esquecer de você.
Ela disse:
- Nem eu.
Ele afastou-a um pouco, para vê-la melhor. Ele a viu melhor, então: uma mulher um pouco magra, um tanto tensa, cheia de idéias, muito nova - e tão doce. As duas mãos apoiadas nos ombros dele, assim afastando os cabelos, no mesmo momento ela o viu melhor: um homem não muito alto, ar confuso, certa barriga, muito novo - e tão doce. Que grande cilada, pensaram. Ficaram se olhando assim.
Ela não suportou olhar tanto tempo. Virou de costas, debruçou-se na janela, feito filme. Então ele veio por trás. Tocou-a devagar no ombro nu moreno dourado sob o vestido decotado, e disse:
- Sabe, eu pensei tanto. Eu acho que.
Ela se voltou de repente. E disse:
- Eu também. Eu acho que.
Ficaram se olhando. Completamente dourados, olhos úmidos. Seria a brisa? Verão pleno solto lá fora.
Bem perto dela, ele perguntou:
- O quê?
Ela disse:
- Sim.
Puxou-o pela cintura, ainda mais perto.
Ele disse:
- Você parece mel.
Ela disse:
- E você, um girassol.
Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro.

Se puder sem medo (Oswaldo Montenegro)


Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Alfabeto do amor


Vou cantar de A a Z
Prá falar tudo
Que eu quero
De você
A de Amor
B de Beijo
C de Calor
D de Desejo
E de Encanto
F de Fixação
G de Gamo
H de História da paixão
I Insuportável viver sem você
J que Jamais vou te esquecer
L da Lembrança que ficou
M dos Momentos de amor
N Nada vai nos separar
O Obrigado por ficar
P de Paixão que vai rolar
Q Quero sempre te amar
R da nossa Realidade
S "S" pode ser Saudade
T Te quero de verdade
U de Única
V de Vontade
Vontade de te amar
X e Z eu não preciso nem dizer
N Nada vai nos separar
O Obrigado por ficar
P de Paixão que vai rolar
Q Quero sempre te amar
R da nossa Realidade
S "S" pode ser Saudade
T Te quero de verdade
U de Única
V de Vontade
Vontade de te amar
X e Z eu não preciso
Nem dizer

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Perdão (Tati B.)


Obviamente não posso contar aqui de quem se trata, mas peço que vocês imaginem a pessoa mais bonita, mais educada, mais elegante, mais rica, mais charmosa, mais inteligente, mais cheirosa, mais bem sucedida, mais dentes perfeitos, mais voz de deuses inventores do testosterona, mais ombros largos, mais cabelo de comercial de cueca (também não sei o que quis dizer com isso, mas vejo o cabelo dele e penso numa cueca importada, de seda preta, cheirosa, com firme malemolência), mais barriga tanquinho e mais congela respirações em restaurantes. Até o pescoço do cara é bonito, com um traço reto que sai do centro da sua orelha e vai até o princípio de sua horizontal e perfeita clavícula de nadador. Até a canela, até o queixo, até o cotovelo, até a unha levemente rosada do dedão.
O cara é perfeito. Daqueles que não vemos andando por aí, nas ruas, nos cinemas, nas casas de amigos, nos lugares que frequentamos. Que também não vemos naquelas festas mais frescas que, por alguma razão misteriosa, por algumas vezes encaramos, curiosos, querendo pertencer à nata. Não é um tipo de ser que se vê, se tem por perto, se sabe, se ouve falar. Nem sei explicar direito. Às vezes, no meio de alguma conversa acalorada, (e meu calor quase nunca é pelo teor intelectual do que levantamos) me pergunto mesmo se meus remédios para pânico não me fizeram ver miragens. Esse ser existe? Alguém com esse tamanho de mão, existe? Alguém com esse inchaço de lábios, existe?
Criado por sete babás suíças e tendo como primeiros bichinhos de estimação cavalos brancos treinados para amar, o homem anda como um príncipe do bem numa super produção de Hollywood. E deve trepar como uma produção asiática bem forte e lenta. E ri como um comercial ruim e caro de pasta de dente. E discorda com uma ironia doce que me faz concordar com qualquer coisa que venha perfumada por seu hálito perfeito, qualquer mesmo, aliás, que coisa? Não posso, não consigo, ouvir. Ouço seu uououououo, mas não sei o que o canto do sereio estelar quer dizer exatamente. Só sei que se ele não tiver razão, a razão perdeu a razão.
Sua beleza é tanta que me sinto em falta com o cosmos. Sua superioridade é tanta que juro, baixinho, pra mim: nunca mais vou usar aquele pijama amarelo com ursos e o pote de mel, nunca mais vou sentar corcunda em restaurantes, nunca mais vou preferir os sapatos confortáveis, nunca mais vou comprar edredom na M. Martan, nunca mais vou ficar sem depilar só para os pêlos crescerem bastante e não ficaram encravados. Nunca mais, oh, Deus, oh rei, nunca mais. Sim, aceito um chá, e arrumo o óculos, séria.
Ele então começa a me contar. Sua história. Como conseguiu isso, aquilo, aquilo mais, aquilo outro. E eu o escuto, pensando, enquanto ele coordena cronologias e tons, uma única frase que se repete a cada segundo: quequeéisso! Só isso.
Isso não é um homem, é uma ofensa pra humanidade. É ele quem deveria pedir desculpas. Perdão por eu não combinar com o mundo. Eu sei, eu sei, nem eu aguento a minha beleza. Eu mereço mesmo sumir, pode me comer. Inteiro. Perdão, perdão.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O único lugar pra sempre (Tati B.)


Os mocinhos que aparecem, com intervalos de dez ou vinte dias, e me abastecem de um gostar possível e descartável. Nada disso me soa banal e aprendi mesmo a chamar de minha vida. Agora serão dias achando tudo idiota e até mesmo medíocre. Ainda que sentir de verdade pareça uma outra vida, às vezes cansa viver dentro das coisas que invento. Com você, mesmo eu inventando tudo também, dá pra ter essa sensação de desordem, atropelamento. Mesmo sendo ofensivo pra minha existência que pessoas como você existam. Mesmo que sua tristeza e preguiça e desistência mostrem pra minha frescura de sentidos como tudo pode ser amargo. Mesmo que sua alegria nunca seja por mim. E que sua alegria torne, quando por mim, minha vida intolerável. Sua existência é um absurdo e isso é a maior verdade que me vem à mente quando penso em você ou estou ao seu lado.
Passamos a tarde juntos. Foi leve e eu estava quieta, coisa que nunca aconteceu nenhuma das vezes que saímos. Eu estava sempre histérica e hoje eu estava muito quieta, até demais. Talvez seja porque eu não tenho mais a euforia louca de ser amada. Eu piro quando alguém me ama e ao ver em você a calmaria dos vencedores corriqueiros, larguei o corpo. Acabou sendo boa, a sensação de tarde ordinária, encontro ordinário. Eu pude habitar o papel de amiga caminhando ao lado, uma forma de ouvir por perto sua respiração pigarrenta que amo como se fosse o único sopro saudável do mundo. Eu permaneci e isso foi diferente, triste, insuportável, mas possível. Acho que seu desejo morreu e talvez o meu também. Você encerrava em mim eu mesma e era uma loucura tudo, como eu sentia, como eu queria me vomitar e ensanguentar e explodir e rodopiar em mim até furar o chão. Era uma loucura tudo. Mas a morte, o fim, nós, andando calmos, ao lado um do outro, isso me permitiu estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e para isso me retirando o tempo todo. E isso pode ser viver, mas viver é terrível. E antes, quando eu não sabia viver e me sentia amada, era ainda mais terrível. Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes pois em nada dá pra ser com você. E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu sinta um amor absurdo por você.
Me peguei uma hora, olhando você, andar, tão feinho. Dessas que é mentira a pérola e o som do mar, mas eu os vejo, o tempo todo. Você andando desse seu jeito meio de louco, que chacoalha a cabeça. E se veste mal quando pouco se importa, eu sei, eu entendi. Você é tão errado e cheio de estragos. E me peguei olhando pra tudo isso e amando tanto, tanto, tanto. Como se nada mais no mundo fosse tão bonito ou correto ou mesmo perfeito porque perfeito é o que não tem mesmo cabimento.
Certa vez, você me colocou no seu colo e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. E me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu tinha subido todos os seus andares. Eu entendi que você era o homem da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho. E eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo. A vertigem que era. Minhas olheiras, meu cansaço. Eu poderia morrer. Mas quem é mesmo que morre dessas coisas? Não, não podemos, com tanta coisa pra fazer, os meninos de dez a vinte dias, os bares, e almoços, a dança, escrever, tudo isso que é minha vida antes e depois de você. Tudo isso que daqui a pouco, quando a sensação desgraçada de absurdo e solidão passar, tudo isso volta, se acomoda, o gostosinho no peito, esquecer você todo dia um pouco pra vida e todo dia muito pro dia. Mas agora, hoje, guarda isso, eu amo demais você. Por que escrevo? Porque é a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos os dias mostrando pra gente que nada vale de nada. Toma esse texto, o único lugar seguro e eterno pra gente.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um anjo do céu


"Como se seu estado natural fosse constantemente esse, quase sorrindo, olhando para outro lugar que não era aqui. Onde as coisas fossem diferentes, boas de serem vividas."

domingo, 13 de junho de 2010

Arquitetura


Arquitetura etimologicamente falando significa "grande carpinteiro", palavra designada do grego. É a arte de construir com um fim específico baseada em idéias de funcionalidade, estruturação, suatentabilidade, originalidade ou recriação, imaginação, entre outros.
Arquitetura não é obrigatiriamente sinônimo de beleza, mas propositalmente ninguém faz Arquitetura sem alguma intenção estética e "nem toda construção é Arquitetura, mas toda Arquitetura é uma construção". Realizada com alguma intenção e com algum propósito de organização.
Arquitetura é a identidade de um povo, é a retratação do tempo, é puramente cultura.

sábado, 5 de junho de 2010

Os sapatinhos vermelhos (Caio F.)


TINHA terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina - ela repetiu olhando-se bem nos olhos, em frente ao espelho. Ou quando começa: certo susto na boca do estômago. Como o carrinho da montanha-russa, naquele momento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora.
Tempo perdido, pura perda de tempo. E não me venha dizer mas teve bons momentos, não teve não? A cabeça dele abandonada em seus joelhos, você deslizando devagar os dedos entre os cabelos daquele homem. Pudesse ver seu próprio rosto: nesses momentos você ganhava luz e sorria sem sorrir, olhos fechados, toda plena. Isso não valeu?
Ué, você não escolheu? Ele ficou então parado à frente dela, muito digno. Absolutamente controlado. Nem um fio de cabelo fora do lugar enquanto repetia pausado, didático convincente – mas você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar este rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.
Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro e relacionamento e rompimento e afeto, teria dito também estima e consideração e mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite - estalactite ou estalagmite? merda, umas caíam de cima, outras subiam de baixo, mas que importa: aquela lança fininha de gelo afiado - cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela.
Baixou a cabeça como quem vai chorar. Mas não choraria mais uma gota sequer, decidiu brava, e contemplou os próprios pés nus. Uns pés pequenos, quase de criança, unhas sem pintura. Na segunda-feira, tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado beber mais um gole de uísque para ajudar a idéia vaga a tomar forma. Pouco antes de começar a procura dos óculos. Que tinham sido presente dele, meio embriagado e mais ardente depois de um daqueles fins de semana idiotas, tanto tempo atrás.
De alguma forma, tinha decorado aquele texto há tanto tempo que apenas o supunha esquecido. Como uma estréia adiada, anos. Bastavam as primeiras palavras, os primeiros movimentos, para que todas as marcas e inflexões se recompusessem em requintes de detalhes na memória. O que faria a seguir seria perfeito, como se encenado e aplaudido milhares de vezes.
E meio de repente - porque depois do quarto ou quinto uísque tudo acontece sempre assim, sem que se possa determinar o ponto exato de transição, quando uma situação passa a ser outra situação -, quase de repente.
Acordou no sábado, manhã cedo, campainha furando a cabeça dolorida. Ele estava parado no corredor, dúzia de rosas vermelhas, sorriso nos lábios pálidos. Não era preciso dizer nada. Só sorrir também. Mas ela não sorria quando disse:
- Vai embora. Acabou.
Ele ainda tentou dizer alguma coisa. Chegou mesmo a entrar um pouco na sala antes que ela o empurrasse aos gritos para fora. Jogou as rosas vermelhas na cara dela e foi embora para sempre.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O último (Tati B.)


Eu me descubro ainda mais feliz a cada pedaço seu e de tudo o que é seu. Eu amo tanto o seu banheiro com as combinações em verde e a chuva fina do chuveiro, que chorei essa manhã enquanto você tomava taffman-e e ouvia música eletrônica.
Às vezes você é tão bobo, e me faz sentir tão boba, que eu tenho pena de como o mundo era bobo antes da gente se conhecer.
Eu queria assinar um contrato com Deus: se eu nunca mais olhar para homem nenhum no mundo, será que ele deixa você ficar comigo pra sempre?
Eu descobri que tentar não ser ingênua é a nossa maior ingenuidade, eu descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa, eu descobri que vale a pena ficar três horas te olhando sentada num sofá mesmo que o dia esteja explodindo lá fora.
E quando já não sei mais o que sentir por você, eu respiro fundo perto da sua nuca, e começo a querer coisas que eu nem sabia que existiam.
Quando a gente foi ver o pôr-do-sol na Praça pôr-do-sol, eu, você e a Lolita, a minha cachorrinha mala, e a gente ficou abraçado, e a gente se achou brega demais, e a gente morreu de rir, eu senti um daqueles segundos de eternidade que tanto assustam o nosso coração acostumado com a fugacidade segura dos sentimentos superficiais.
Eu olhei para você com aquela sua jaqueta que te deixa com tanta cara de homem e me senti tão ao lado de um homem, que eu tive vontade de ser a melhor mulher do mundo.
E eu tive vontade de fazer ginástica, ler, ouvir todas as músicas legais do mundo, aprender a cozinhar, arrumar seu quarto, escrever um livro, ser mãe.
E aí eu só olhei pra bem longe, muito além daquele Sol, e todo o meu passado se pôs junto com ele. E eu senti a alma clarear enquanto o dia escurecia.
Eu te engoli e você é tão grande pra mim que eu dedico cada segundo do meu dia em te digerir. E eu não tenho mais fome, e eu tenho que ter fome porque eu não quero você namorando uma magrela. E eu sonhei com você e acordei com você, e eu te olhei e falei que eu estava muito magrela, e você me mandou dormir mais, e me abraçou.
Eu preciso disfarçar que não paro mais de rir, mas aí olho pra você e você também está sempre rindo. Se isso não for o motivo para a gente nascer, já não entendo mais nada desse mundo.
E eu tento, ainda refém de algumas células rodriguianas que vez ou outra me invadem, tentar achar defeito na gente, tentar estragar tudo com alguma sujeira.
Mas você me deu preguiça da velha tática de fuga, você me fez dormir um cd inteiro na rede e quando eu acordei o mundo inteiro estava azul.
Engraçado como eu não sei dizer o que eu quero fazer porque nada me parece mais divertido do que simplesmente estar fazendo. Ainda que a gente não esteja fazendo nada.
Eu, que sempre quis desfilar com a minha alegria para provar ao mundo que eu era feliz, só quero me esconder de tudo ao seu lado.
Eu limpei minhas mensagens, eu deletei meus emails, eu matei meus recados, eu estrangulei minhas esperas, eu arregacei as minhas mangas e deixei morrer quem estava embaixo delas. Eu risquei de vez as opções do meu caderninho, eu espremi a água escura do meu coração e ele se inchou de ar limpo, como uma esponja. Uma esponja rosa porque você me transformou numa menina cor-de-rosa.
Você me transformou no eufemismo de mim mesma, me fez sentir a menina com uma flor daquele poema, suavizou meu soco, amoleceu minha marcha e transformou minha dureza em dança. Você quebrou minhas pernas, me fez comprar um vestido cheio de rendas e babados, tirou as pedras da minha mão.
Você diz que me quer com todas as minhas vírgulas, eu te quero como meu ponto final.

: Você não é melhor, nem pior do que todos os outros. E você pode até nem ser o homem da minha vida, mas foi o que chegou mais perto.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quer namorar comigo?


"E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras."

- Moço, ela é sua filha?!
- Ela está perguntando se eu sou sua filha - disse a menina.
- Ela?! Não. Ela é minha namorada! - respondeu o moço com convicção.
- Eu não sou sua namorada. Você não me pediu em namoro!
- Então espera um pouco.
(...)
- Você quer namorar comigo?! - pergunta o moço entregando-a uma rosa. - É pra você.
- Eu não.
- Sério?!
- Não!
- Então, você quer namorar comigo?!
- Quero, seu bobo!
- Psiiiiiu. Ei, você é minha. Só minha.

O moço com olha para a menina com ar de risos e depois para o céu em sinal de gratidão. A menina olha para o céu com ar de risos e depois para o moço em sinal de gratidão, mas com o coração nas mãos pensando: Até quando?!

: - Ei, ei. Mande uma mensagem pra Paulinho, mande. Só uma! Você manda?! (...) Tá bom.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Para sempre nosso


"Para sempre seu, para sempre meu, para sempre nosso."

Porque elas são meu orgulho, minha vida, minha saudade, minha história, meu São João, minha dança da motinha/bicicletinha, são meu balacobaco, meu Red Label, meu "paguedão", minha Lua, meu cabelão, minha caneca, meu verão, meus "pnêis", minha "carlota", minhas "estautas", meu "super-homem", meu diário, meu cara rico e bem novinho, minha sinuca, meu latão de pitú, minhas BOAS, uma prima minha, um casamento por amor, "um filme de arquitetura", compartilhamento de tudo, TUDO MESMO, minha bay-blade voadora, meu lual do Jammil, minha metralhadora, minha melancia. Minhas verdades inteiras, meu cheiro de espirro alheia, minhas 3 horas (3 horas?), são minhas 812 vezes, são meu "omelhorcaradomundo", são meu 1 ano e 4 meses mais bem vividos, meu companheirismo, minha amizade, minha dedicação, meu carinho, meu cuidado, minha atenção, minha saudade, minhas historinhasparaaquecerocoração, meus risos, meus sorrisos, minhas lágrimas, meus conselhos, meus filmes, meus abraços, minhas melhores festas, minhas noites acordadas, minhas tardes de roedeira, meu verão, meus sonhos, meus projetos, meus "Dias de SOL, noites de SOM", são minhas mais altas doses de felicidade misturadas com loucura e prazer de uma paixão. Porque não há paixão no mundo maior que a nossa. Inveja é um sentimento feio, mas assumo e dido mais: sinto inveja de mim mesma por tê-las como amigas. E quem as ama, ama menos do que eu!

:Faltou o Super-homem na foto, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Agora, acabou.


"Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares deprê em que procura. E do quanto a sua felicidade sem mim deve ser pouca pra você viver reafirmando o quanto é feliz sem mim e principalmente viver reafirmando isso pra mim."

Tu não terás aqueles meus olhares bobos, nem aqueles abraços todos. Não quisestes me fazer sorrir em um domingo qualquer, à beira daquele mar. Portanto não vais descobrir meus segredos através desses sorrisos tortos. Eles, agora, pertencem ao dono dos meus sonhos. Não quisestes ser meu Sol. Nem que eu fosse tua Lua. Não quisestes ser nada meu. Não quisestes que eu fizesse parte dos seus planos. E não tens o direito de criticar-me pelas minhas faltas, nem de me cobrar pela minha falta de cobranças. Não tens o direito se quer, de ter direito. Não quisestes reparar minhas manias. Não quisestes conhecer mais do meu passado. Não quisestes ser meu. Não saberás sobre o meu hábito de tomar café antes de dormir, meu hábito de não tomar todo o café e sempre restar um pouco. Não ouvirás minha constante falta de argumentos e falta de organização dos meus pensamentos. Nem tão pouco, ouvirás de alguém o que já ouvistes de mim. Um "eu gosto de você" tão intenso, ou um "senti saudades suas" tão sincero. Não lerás mais palavras minhas escritas para ti. Não receberás de ninguém uma bola estourada de presente de aniversário. Não lerás os e-mails apaixonados que outrora eu te mandava. Não quisestes ver nos meus olhos meus sentimentos. Não quisestes ler nos meus lábios o meu desejo. Não terás a quem ensinar o que é "impedimento". Se quiser saber, eu ainda tinha muito o que aprender, mas tu não quisestes mais me ensinar. Não saberá por ninguém que eu comprei uma camisa do seu time preferido, só por ser boba e imaginar que assitiria à outros jogos junto à ti. Não vais se apaixonar pelos meus textos. Estes agora, terão novos personagens e tu destes, não será mais nem figurante. Não te contarei meus planos futuros ou sonhos passados, meus enganos, meus desassossegos. Não quisestes mais me dar conselhos. Não quisestes ser a minha paz. Nem que eu fosse teu abrigo.
Não me refugiarei em teus braços. Não contornarei teu sorriso com meus dedos e não mais cantarei aquela canção que me lembra tu. Não assistiremos ao último episódio daquela série juntos. Não vais poder reclamar do fato de eu simplesmente não ligar. Não vais fazer com que eu me sinta culpada por te falar sobre sentimentos. Por querer sair sozinha. Por não te escrever outros novos versos bonitos, logo para tu que me fizestes tão feliz.
Então preciso te pedir um último favor ainda depois daquele último beijo. Peço que não jogues fora aqueles presentes todos. Guarde-os aí em um canto qualquer bem escondido do seu novo quarto, onde tu esqueças por um longo tempo de que eles existam. E quando sentires falta de um amor, qualquer que seja este, procure-os, abra-os e leia-os. Se tu tiveres certeza de que estes não tem mais sentido algum para ti, abra a porta e jogue-os fora. Mas se despeça antes. Peça um último beijo, só para tu guardares o sabor que este louco amor teve e sentir o mesmo que eu senti quando abri a porta pela última vez para que tu fostes embora. Eles provavelmente terão um gosto doce de saudade, de nostalgia, mas nunca de arrependimento. Eles te farão sentir um medo do mundo lá fora, mas tu vais conseguir viver bem sem eles. Eu sei que vais. E te farão também sentir um vazio imenso, como eu senti ao fechar aquela porta e tu podes até pensar como eu pensei também, se quiseres: "E agora?" Isso, quando eu souber a resposta eu posso até te contar. E posso te dizer de antemão que amores sempre acabam, mas como o verão ou a primavera, eles sempre voltam.
E se mesmo assim ainda não fizerem sentido algum, e agora?! Agora? Agora, acabou.

:Boa sorte na defesa da monografia.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Crime e Castigo (Fiodor Dostoiévski)


Ora veja… É o que sempre acontece às pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, nela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário. Jamais querem, antecipadamente, dar às coisas o seu devido nome. Essa simples idéia lhes parece insuportável. A verdade, repelem-na com todas as forças até o momento em que aquela pessoa, engalamada por elas próprias, lhes mete um murro na cara.