
"Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. E se ela se afogar, se recupera."
Prometi que não escreveria. Que deixaria para lá, jogado - como fizestes com o meu amor. Como fizemos um com o outro. E eu até tentei, juro que tentei, mas não consigo, moço. Preciso desabafar. Peço desculpas pela minha ignorância, pela minhas faltas - que foram tantas.
Sabe, eu sinto um vazio profundo. Meu peito tem andado bem apertado ultimamente e meus sentimentos às migalhas por aí em um canto qualquer dessa estrada sem volta. Cheia de lembranças, de cheiros, de gestos, de sorrisos e de abraços - desde aquela última conversa. Sempre que eu fecho os olhos, te vejo indo embora - como se nunca mais fosse voltar. E choro, sempre. Por que não tem sido fácil para mim, moço. Eu sei que esse meu silêncio te angustia e te inibe. Mas essa distância segura que mantenho de ti agora, é só minha velha e boba esperança de uma dia te reencontrar. Para ser sincera, eu estou com muito medo. Medo de que não passe. Medo esse, que não passa nunca. Você está seguindo, não está? Por favor, diga que não. Quando penso que sim sinto os cacos de vidro na minha garganta. E vai ser assim, né? Por um longo tempo só vou ter esse céu de uma tempestade anunciada. Esse nó na garganta. Essa ausência que vou tentar preencher com os livros do único homem que me entende, com textos, músicas e filmes que só servem para mostrar o quanto é deprimente seguir sem ti. E nada de novos amores. Humhum.
- Não menina. Não precisas te desculpares. Não tivemos culpa. Sei que não. Nem tu - menina de olhos d'água -, nem tão pouco eu - moço de sorriso sem brilho - fomos capazes de mudar nossos roteiros. "Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." É assim que funciona e é assim que vai ser sempre. Mas o que eu sinto vai continuar aqui. Vai ficar assim: triste, solitário. Mas vai passar, menina. Sabes que vai passar. Sinto uma angústia que me toma o peito e uma insignificância minha, por não poder fazer nada a respeito, por não saber como te aliviar, por não ter as palavras certas para te cantar e não ter a luz no fim do teu túnel, algo que possa te guiar.
Mas eu preciso. Até tentarei manter a doçura. E como desejei que fosse doce. Repetia sempre, mais de sete vezes. Todas as manhãs. Agora, todas essas linhas serão eternas aqui. Tudo que escrevi para ti vai ficar aqui. Tudo - o que quase fomos - vai ficar aqui. Vai conter cada pedaço de sentimento que eu te entreguei e tu quisestes recusar. Isso foi o que sobrou do nosso "para sempre". E estará para sempre aqui. Não vou esperar que o telefone toque ou que cartas finalmente cheguem como bem sei que tu também não o farás. Eu quis demais de ti, moço. Eu quis declarações, quis palavras. Me joguei desse trem para cair inteira no teu mundo, mas tu não estavas disposto - como tu mesmo me dissestes - nunca estivestes e então dei de cara com apenas os trilhos.
- Te conheço através das tuas palavras mansas e lia nossas histórias nas linhas e entrelinhas narradas por ti. Imagino-te contanto - sempre sorrindo - que haviam novas palavras. Tuas palavras, sempre tão divertidas, tornaram-se ácidas aos meus olhos. Ásperas. Cada linha lida é um punhal recebido nas costas, uns olhos marejados e uma saudade desconhecida. Tu, que sempre me veio vestida de doçura e felicidade; gigante. Coração maior ainda, mesmo com teus disfarces. És tu então, parte de mim já tem tempos e não vejo que nesse mundo de letras de forma não esbarres em mim outra vez. Desde que te conheço em silêncios, fazes parte de todos os meus momentos.
Tu não havias provado o sabor que isso tem antes de me conhecer, moço. E depois... Ah, depois daquele verão, depois daquele carnaval e depois daquela dança, tu sabes. Tu quisestes, eu sei. Por que agora eu tinha conseguido atingir teu coração de moço que não acredita nessas bobagens de amor. E por favor, não me corrija se eu estiver errada. Só quero te dizer que a fé que eu tinha em ti continua aqui. Eu sempre fui uma menina cheia de fé. De esperança. Eu acredito em ti. Eu torço por ti. Eu te quero muito bem e eu vou continuar querendo. Durante os anos, tu vais ver. Vou estar discretamente em lugares estratégicos te aplaudindo. Eu prometo. Eu sempre vou estar lá para te aplaudir. E acredita? Terás muitas ocasiões assim. Eu acredito.
Talvez seja melhor assim. Tenho que conhecer coisas novas. Me encontrar e me perder mais algumas vezes. Tenho que encontrar alguém que sinta tanta falta de mim tanto quando eu sinto de ti. E hoje tu não és esse cara, né? Nem nunca vai ser, eu sei. E para não apagar as boas lembranças eu preciso ir agora. Sozinha. Mas sabes o que me faz sorrir nesse instante? Pensar que tu podes lembrar-se de mim. Mas aí, lembrei que tens a pior memória do mundo. Mas lembrarás dos contos do meu amigo Caio que eu sempre te mandei, por que ele sabe em gênero e número o que eu sinto por ti. E pensando assim, acho que vou ter mais dias difíceis de saudades. E nesses dias terei esperança de que tu também sintas uma saudade incontrolável de mim. Vou sentir tanto a tua falta. Eu não queria ir, eu juro.
- Então me dói de maneiras estranhas essa dor que te rasga. Sinto raiva da vida que te é triste e de tudo que te inibe o sorriso.
Prometo te deixar na região dos meus sentimentos mais nobres. Prometo rezar por ti sempre. Prometo que sempre me lembrarei de ti. E se tu ainda quiseres, a gente toma chá aos 70 anos. Eu sei que eu ainda vou querer. Eu sei que vou continuar a mesma. E tu sabes que vou mudar muito pouco. Mas eu mudaria se tu quisesses.
Difícil dizer adeus, mas um dia eu hei de conseguir. Por que se eu me afogar, eu me recupero - mesmo sem saber nadar.
E sabe de uma coisa? Eu não chorei por ti, bobo. Tu não mereces. Aquelas lágrimas foram por mim, pelo meu amor jogado fora, desperdiçado, pelas apostas que eu fiz e por eu ter perdido todas.
- A mim, sento e rezo. Te peço, menina. Imploro para que o sofrimento não tarde a passar, para que o coração não se esfacele em mais mil pedaços e para que a chuva cesse, deixando o sol te inundar e clarear tuas idéias. Peço que teu sorriso continue estonteante, que tu vejas propósitos além daquilo que te machuca e que a vida se torne mansa. Uma brisa suave, balançando melodia nas folhas secas de um inverno que não começa. Sem clichês, deixo-te meu silêncio. Um respeito ao teu tempo, que se faz necessário. Numa última frase, te digo apenas que passa. Lenta ou rapidamente, passa.
P.S.:"...Se fosse pra te deixar, te deixaria dentro de mim. Se fosse pra te esquecer, te esqueceria só pra lembrar outra vez..."











