sábado, 31 de julho de 2010
Para um menino com uma flor (Tati B.)
Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando encontrar a parte mais quente das suas costas. Ainda estou com este riso BOBo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente.
Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões.
Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com a parte mais quente das suas costas e com o seu jeito de se desculpar por falar demais, você acaba de me salvar.
Este texto é pra te falar uma coisa BOBa. É pra te pedir que não tenha medo de mim.
E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim.
Eu só queria que esta minha vontade de perdoar o mundo durasse. Hoje eu não odiei nada nem ninguém. Eu apenas fiquei lembrando, a cada segundo. Você quis encontrar meu coração pequenininho no escuro. E você encontrou. E você salvou meu dia, minha semana. E salvar meu dia já são zilhões de quilômetros. Você é meu herói.
Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes.
P.S.: Eu também, moço. Eu também.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Semântica (Gian Fabra)
...
- Só sei que nos amamos muito...
- Porque você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
- Não, eu falei no passado!
- Curioso né? É a mesma conjugação.
- Que língua doida! Quer dizer que NÓS estamos condenamos a amar para sempre?
- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
- Pensar assim me assusta.
- Porque? Você acha isso ruim?
- É que nessas coisas de amor eu sempre dôo demais...
- Você usou o verbo "doer" ou o verbo "doar"?
- [Pausa] Pois é, também dá no mesmo...
terça-feira, 27 de julho de 2010
Faz de conta (Martha M.)

Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: FAZ DE CONTA QUE EU TE ODEIO
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: FAZ DE CONTA QUE EU TE AMO.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: FAZ DE CONTA QUE EU DOU CONTA DO RECADO.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO QUERO.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: FAZ DE CONTA QUE EU ME IMPORTO.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: FAZ DE CONTA QUE EU NÃO SOFRO.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: FAZ DE CONTA QUE EU ENTENDO.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: FAZ DE CONTA QUE EU COZINHO.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: FAZ DE CONTA QUE NÃO DÓI.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Anotações de um amor urbano (Caio F.)
Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.
Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Amanhã não sei, não sabemos.
Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos e você me beija e você me aperta e você me leva e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. O inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como chamar agora a essa meia dúzia de toques aterrorizados pela possibilidade da peste? (Amor, amor certamente não.) Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça? Não evitaremos. Eu tenho medo, não quero correr riscos, mas agora só existe um jeito e esse jeito é correr o risco. Estou muito cansado. Não faz assim, não diz assim. É muito pouco. Não vai dar certo. Eu tenho medo. Eu não aceito nada, nem me contento com pouco. Eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo.
Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos. Depois me diz: “Vamos embora. Deixe tudo como está. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você."
Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos.
Olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa — gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você.
P.S.: Tô pagando para ver no que vai dar! E assim como você fez, deixei todas as fichas sobre a mesa. Só para não dizerem que eu não tentei. Só para não dizerem que eu não avisei!
sábado, 24 de julho de 2010
O aniversário da cunhada
"Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto."
- Estava com saudade de você. Sério mesmo!
(cri-cri)
- Você já abusou de mim, não foi?!
- AINDA não!
- Ah... AINDA não?! Muito confortante saber disso!
(...)
- Adoro seu beijo - diz Helder com cara de Herlon.
- Eu já parei de dizer. Fiquei com vergonha de tanto já ter dito.
- Mas eu já te expliquei! A gente não diz só pra parecer ser recíproco. A gente diz por que sente e por que quer dizer. Foi por isso que eu disse.
- Eu sei, meu Helder... Então eu também adoro.
- Eu sinto falta de você nas festas. De você e do seu beijo. Sabia que a gente foi eleito o casal do beijo mais inconveniente do São João. Eu não ia dizer não, mas não me agüentei.
- Que bom! Agora eu nem tô com vergonha!
Bolinha dançando comigo e conversando com Helder:
- Vou pegar pra mim.
- Isso é comigo, Bolas?!
- É. Olha o ar que Helder vai pegar... Helder, vou pegar pra mim!
- Sai. Essa aí é in-trans-fe-rí-vel!
A cunhada depois da festa:
- A mulher que casar com esses dois vai ganhar (literalmente) na loteria. Eu já disse a Helder que eu dou um prêmio a quem conseguir conquistar o coração dele por que aquele alí pra se apaixonar... É difícil!
P.S.: Um ano depois e nenhuma palavra sequer.
- Estava com saudade de você. Sério mesmo!
(cri-cri)
- Você já abusou de mim, não foi?!
- AINDA não!
- Ah... AINDA não?! Muito confortante saber disso!
(...)
- Adoro seu beijo - diz Helder com cara de Herlon.
- Eu já parei de dizer. Fiquei com vergonha de tanto já ter dito.
- Mas eu já te expliquei! A gente não diz só pra parecer ser recíproco. A gente diz por que sente e por que quer dizer. Foi por isso que eu disse.
- Eu sei, meu Helder... Então eu também adoro.
- Eu sinto falta de você nas festas. De você e do seu beijo. Sabia que a gente foi eleito o casal do beijo mais inconveniente do São João. Eu não ia dizer não, mas não me agüentei.
- Que bom! Agora eu nem tô com vergonha!
Bolinha dançando comigo e conversando com Helder:
- Vou pegar pra mim.
- Isso é comigo, Bolas?!
- É. Olha o ar que Helder vai pegar... Helder, vou pegar pra mim!
- Sai. Essa aí é in-trans-fe-rí-vel!
A cunhada depois da festa:
- A mulher que casar com esses dois vai ganhar (literalmente) na loteria. Eu já disse a Helder que eu dou um prêmio a quem conseguir conquistar o coração dele por que aquele alí pra se apaixonar... É difícil!
P.S.: Um ano depois e nenhuma palavra sequer.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Ele é genial
"Quem é que antes de dormir vai sempre no meu quarto me dar um beijinho?
Quem é que quando eu tenho medo esta sempre ao meu lado não fico sozinho?
Quem é que se às vezes precisa me dar uma bronca fica chateado?
E quem é que sempre me avisa quando vou brincar para tomar cuidado?
Quem é que quando estou doente me pega no colo e me faz um carinho?
E quem é que fica contente quando ve um dez lá no meu caderninho?
Ele me quer bem, ele é genial, ele é meu amigo querido e é muito legal."
P.S.: 68 anos é muito tempo. Feliz aniversário!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Presente ausência (Martha M.)

Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.
P.S.: "And if you really want to know: There was never anybody. I only wanted you."
domingo, 11 de julho de 2010
Jogo da vida

"Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. E se ela se afogar, se recupera."
Prometi que não escreveria. Que deixaria para lá, jogado - como fizestes com o meu amor. Como fizemos um com o outro. E eu até tentei, juro que tentei, mas não consigo, moço. Preciso desabafar. Peço desculpas pela minha ignorância, pela minhas faltas - que foram tantas.
Sabe, eu sinto um vazio profundo. Meu peito tem andado bem apertado ultimamente e meus sentimentos às migalhas por aí em um canto qualquer dessa estrada sem volta. Cheia de lembranças, de cheiros, de gestos, de sorrisos e de abraços - desde aquela última conversa. Sempre que eu fecho os olhos, te vejo indo embora - como se nunca mais fosse voltar. E choro, sempre. Por que não tem sido fácil para mim, moço. Eu sei que esse meu silêncio te angustia e te inibe. Mas essa distância segura que mantenho de ti agora, é só minha velha e boba esperança de uma dia te reencontrar. Para ser sincera, eu estou com muito medo. Medo de que não passe. Medo esse, que não passa nunca. Você está seguindo, não está? Por favor, diga que não. Quando penso que sim sinto os cacos de vidro na minha garganta. E vai ser assim, né? Por um longo tempo só vou ter esse céu de uma tempestade anunciada. Esse nó na garganta. Essa ausência que vou tentar preencher com os livros do único homem que me entende, com textos, músicas e filmes que só servem para mostrar o quanto é deprimente seguir sem ti. E nada de novos amores. Humhum.
- Não menina. Não precisas te desculpares. Não tivemos culpa. Sei que não. Nem tu - menina de olhos d'água -, nem tão pouco eu - moço de sorriso sem brilho - fomos capazes de mudar nossos roteiros. "Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." É assim que funciona e é assim que vai ser sempre. Mas o que eu sinto vai continuar aqui. Vai ficar assim: triste, solitário. Mas vai passar, menina. Sabes que vai passar. Sinto uma angústia que me toma o peito e uma insignificância minha, por não poder fazer nada a respeito, por não saber como te aliviar, por não ter as palavras certas para te cantar e não ter a luz no fim do teu túnel, algo que possa te guiar.
Mas eu preciso. Até tentarei manter a doçura. E como desejei que fosse doce. Repetia sempre, mais de sete vezes. Todas as manhãs. Agora, todas essas linhas serão eternas aqui. Tudo que escrevi para ti vai ficar aqui. Tudo - o que quase fomos - vai ficar aqui. Vai conter cada pedaço de sentimento que eu te entreguei e tu quisestes recusar. Isso foi o que sobrou do nosso "para sempre". E estará para sempre aqui. Não vou esperar que o telefone toque ou que cartas finalmente cheguem como bem sei que tu também não o farás. Eu quis demais de ti, moço. Eu quis declarações, quis palavras. Me joguei desse trem para cair inteira no teu mundo, mas tu não estavas disposto - como tu mesmo me dissestes - nunca estivestes e então dei de cara com apenas os trilhos.
- Te conheço através das tuas palavras mansas e lia nossas histórias nas linhas e entrelinhas narradas por ti. Imagino-te contanto - sempre sorrindo - que haviam novas palavras. Tuas palavras, sempre tão divertidas, tornaram-se ácidas aos meus olhos. Ásperas. Cada linha lida é um punhal recebido nas costas, uns olhos marejados e uma saudade desconhecida. Tu, que sempre me veio vestida de doçura e felicidade; gigante. Coração maior ainda, mesmo com teus disfarces. És tu então, parte de mim já tem tempos e não vejo que nesse mundo de letras de forma não esbarres em mim outra vez. Desde que te conheço em silêncios, fazes parte de todos os meus momentos.
Tu não havias provado o sabor que isso tem antes de me conhecer, moço. E depois... Ah, depois daquele verão, depois daquele carnaval e depois daquela dança, tu sabes. Tu quisestes, eu sei. Por que agora eu tinha conseguido atingir teu coração de moço que não acredita nessas bobagens de amor. E por favor, não me corrija se eu estiver errada. Só quero te dizer que a fé que eu tinha em ti continua aqui. Eu sempre fui uma menina cheia de fé. De esperança. Eu acredito em ti. Eu torço por ti. Eu te quero muito bem e eu vou continuar querendo. Durante os anos, tu vais ver. Vou estar discretamente em lugares estratégicos te aplaudindo. Eu prometo. Eu sempre vou estar lá para te aplaudir. E acredita? Terás muitas ocasiões assim. Eu acredito.
Talvez seja melhor assim. Tenho que conhecer coisas novas. Me encontrar e me perder mais algumas vezes. Tenho que encontrar alguém que sinta tanta falta de mim tanto quando eu sinto de ti. E hoje tu não és esse cara, né? Nem nunca vai ser, eu sei. E para não apagar as boas lembranças eu preciso ir agora. Sozinha. Mas sabes o que me faz sorrir nesse instante? Pensar que tu podes lembrar-se de mim. Mas aí, lembrei que tens a pior memória do mundo. Mas lembrarás dos contos do meu amigo Caio que eu sempre te mandei, por que ele sabe em gênero e número o que eu sinto por ti. E pensando assim, acho que vou ter mais dias difíceis de saudades. E nesses dias terei esperança de que tu também sintas uma saudade incontrolável de mim. Vou sentir tanto a tua falta. Eu não queria ir, eu juro.
- Então me dói de maneiras estranhas essa dor que te rasga. Sinto raiva da vida que te é triste e de tudo que te inibe o sorriso.
Prometo te deixar na região dos meus sentimentos mais nobres. Prometo rezar por ti sempre. Prometo que sempre me lembrarei de ti. E se tu ainda quiseres, a gente toma chá aos 70 anos. Eu sei que eu ainda vou querer. Eu sei que vou continuar a mesma. E tu sabes que vou mudar muito pouco. Mas eu mudaria se tu quisesses.
Difícil dizer adeus, mas um dia eu hei de conseguir. Por que se eu me afogar, eu me recupero - mesmo sem saber nadar.
E sabe de uma coisa? Eu não chorei por ti, bobo. Tu não mereces. Aquelas lágrimas foram por mim, pelo meu amor jogado fora, desperdiçado, pelas apostas que eu fiz e por eu ter perdido todas.
- A mim, sento e rezo. Te peço, menina. Imploro para que o sofrimento não tarde a passar, para que o coração não se esfacele em mais mil pedaços e para que a chuva cesse, deixando o sol te inundar e clarear tuas idéias. Peço que teu sorriso continue estonteante, que tu vejas propósitos além daquilo que te machuca e que a vida se torne mansa. Uma brisa suave, balançando melodia nas folhas secas de um inverno que não começa. Sem clichês, deixo-te meu silêncio. Um respeito ao teu tempo, que se faz necessário. Numa última frase, te digo apenas que passa. Lenta ou rapidamente, passa.
P.S.:"...Se fosse pra te deixar, te deixaria dentro de mim. Se fosse pra te esquecer, te esqueceria só pra lembrar outra vez..."
sábado, 10 de julho de 2010
Vai passar (Caio F.)

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na lagartixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Não me importo (Fabrício C.)
Não me importo de esperar vinte minutos com a mão na maçaneta enquanto diz que já está pronta para trocar novamente de vestido. Não me importo de esperar dez minutos sozinho no saguão do cinema cumprimentando conhecidos e tentando segurar o refrigerante e os dois baldes de pipoca enquanto vai ao banheiro. Não me importo de esperar chegar em casa para que me diga quem é o amigo que a abraçou efusivamente na festa. Não me importo de esperar três horas na salinha do hospital para saber se a nossa criança nasceu. Não me importo de esperar as longas conversas de sua mãe sobre o meu temperamento. Não me importo de esperar seu corte de cabelo, que sempre envolve pintura, hidratação e escova. Não me importo de esperar a aprovação de suas amigas. Não me importo de esperar nossos filhos regressarem das baladas para me enfurnar em seu cheiro. Não me importo de esperar que tranque as portas antes de tirar o salto. Não me importo de esperar que volte das lojas com as sacolas dentro das outras sacolas para parecer que gastou menos. Não me importo de esperar que faça as pazes com Deus. Não me importo de esperar quando arruma o armário e doa metade das roupas. Não me importo em esperar que encontre a roupa que já deu na semana passada. Não me importo de esperar que o filme acabe para namorar. Não me importo de esperar que devolva as cobertas que rouba para seu lado de noite. Não me importo de esperar você consultar suas mensagens antes de sair. Não me importo de esperar sua irritação em dias de chuva. Não me importo de esperar você nunca me retornar ligações depois das reuniões. Não me importo de esperar que se acorde no domingo, com receio de que fique nublada. Não me importo de esperar que o ciúme desapareça e volte a me ver como se eu fosse somente seu. Não me importo de esperar sua TPM. Não me importo de esperar o melhor momento para viajar. Não me importo de esperar o tempo que precisa para descobrir que me ama. Ou o tempo que precisa para descobrir que não me ama. Não me importo de esperar que venha de repente nossa música no rádio. Não me importo de esperar as revelações de fotografias de sua máquina antiga. Não me importo de esperar o embrulho de um presente. Não me importo de esperar suas discussões de fim de noite. Não me importo de esperar seu beijo de café cortado. Não me importo de esperar sua ressaca depois da dança.
O que desejo dizer é que não precisa se apressar. Nunca chegará atrasada porque sempre estarei a esperando.

P.S.:Presente a gente guarda. Guarda com carinho.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Mel e girassóis (Caio F.)

Encontraram-se porque era mágico e justo encontrarem-se, exatamente nesse ponto, quando o eu vê o outro. Encontraram-se, enfim, e naquele dia olharam-se.
Olharam-se serenos. Apenas a boca cerrada revelava alguma dureza, mas essa boca se abriu assustada quando ele veio e sem querer esbarrou nela.
Foi assim: ela viajando mais longe que aqueles navios cruzando de tardezinha o horizonte, ninguém sabia em direção a onde. Então ele veio, meio tosco, meio selvagem. A moça contraiu-se. A mão dele também contraiu-se, e ficaram os dois se olhando, direto nos olhos, verão a mil.
Sorriram amavelmente um para o outro, fingiram que estava tudo bem. E estava, sério. Ele, para longe. Ela continuou. Indiferentes. Enquanto ele seguia para longe, meio tosco, meio selvagem, ela espiou. Ele seguia para longe dela, uma pedra no meio do caminho, ela pensou, que tinha algumas leituras, sim. Mas uma pedra, supôs, que afastaria com a ponta do sapato.
Encontraram-se novamente na mesma noite. Desta vez foi diferente. Ele demorou-se um pouco mais na frente do espelho. Mas de maneira alguma pensou nela nem em ninguém mais, enquanto se olhava, garanto. Ela não se demorou. Só entregou certa expectativa - naquele momento, honestamente, nem ela saberia de quê.
Encararam-se. Desta vez, foi ela quem esbarrou nele. Ela sorriu, porque tinha esses lances assim, meio provocantes.
Eles de longe, olharam-se distraídos, pediram licença e debruçaram-se um pouco pelas varandas. Depois, delicadamente foram dormir. Sozinhos.
Manhã seguinte, estendendo a toalha, ela espiou por baixo dos Ray Ban’s gatinho em todas as direções, não que procurasse alguém, até localizá-lo, sem planejar, a poucos metros. Um homem, verdade, com certa barriga, nada de grave, mas ombros largos, pernas fortes, mãos na cintura, atrevidamente solitário. Ele olhava para ela, pura coincidência. Ela sorriu. Ele levantou a mão. Ela também levantou a mão. Paradas assim no ar, por um momento as mãos dele e dela diziam qualquer coisa como oi, você aí. Qualquer coisa assim, nada a ver. Que os homens são assim, ela pensou, tão rudes. E teve um arrepio. Foi nesse arrepio que soube.
Ele soube quando o pau ficou mais duro. Enquanto isso, olhavam-se. Ela, por trás dos Ray ban’s gatinho; ele, das sobrancelhas franzidas, das pálpebras apertadas por causa do sol cada vez mais forte. Oblíquos, cada um à sua maneira, começavam a saber.
Ela ia longe, sim - onde escreveria um livro definitivo sobre A Sabedoria Que As Mulheres Ocidentais Conquistaram Depois Da Grande Desilusão De Tudo Inclusive Dos Homens.
De repente, porque algo acontecera no seu campo de visão, abriu os olhos. Por entre duas coxas masculinas, peludas, musculosas, ela olhou para ele: hein?
Ele estava parado ao lado dela. Ele olhava para ela. Quando ele percebeu que ela olhava para ele, flexionou as coxas e foi-se apoiando aos poucos nos próprios pés dobrados, até ficar quase ao nível dela. Meio sem jeito, meio óbvio demais, mas tudo era verão.
Encontraram-se tanto. Meio idiotas, mas tão felizes. Tudo era tão tropical, estavam de férias, morreram de rir, falaram a gente se vê, sem pressa, ao se despedirem.
No começo afastados, depois cada vez mais próximos. Cantaram juntos e ela de repente ficou toda arrepiada, encostou a cabeça no ombro dele. Ele apertou mais forte na cintura dela. E foram assim, rodando meio tontos. Aos poucos descobrindo, localizando, sitiando.
Ele tentava esquecer uma mulher. Conforme o uísque diminuía na garrafa, ele repetia como-amei-aquela-mulher-nunca-mais-nunca-mais, enquanto ela sentia algum ódio, mas não dizia nada, toda madura repetindo isso-passa-questão-de-tempo-tudo-bem. Para espanto dele, ela falou o nome daquele homem de antes, de outros também, nenhum presta - e ele também sentiu certo ódio, nada de grave, normal, tempos modernos, mero confronto de descornos. Falaram então sobre as paixões, os enganos, as carências e todas essas coisas que acontecem no coração da gente e tudo, e nada. Dançaram de novo. Ele achava tão bom debruçar o rosto naquela curva do pescoço dela. Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido debruçado desse jeito no pescoço dela, um homem tão abandonado e limpinho cheirando não sabia ainda se a Paco Rabanne? Cheiro de homem direito. Afinal, estavam de férias. E livres. Ela deixou que a mão dele descesse até abaixo da cintura dela. E numa batida mais forte da percussão, num rodopio, girando juntos, ela pediu:
- Deixa eu cuidar de você.
Ele disse:
- Deixo.
Assim foram pelos dias, que não eram muitos mais. Caminhavam descalços na areia, à noite, à beira-mar - juro. Devagar, as mãos se tocavam: a tua é tão longa, a tua tão quadrada. Ele não queria entrar noutra história, porque doía. Ela não queria entrar noutra história, porque doía. Ela tinha assumido seu destino de Mulher Totalmente Liberada Porém Profundamente Incompreendida E Aceitava A Solidão Inevitável. Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de Homem Independente Que Não Necessita Mais Dessas Bobagens De Amor. Caminhavam assim, lembrando, juntos. Tão bom encontrar você.
Beijavam-se depois com certa ardência excessiva. A lua era tão cheia, eles não eram tímidos. Ele a achava tão digna e superior, ela o achava tão elegante e respeitador. E pensavam:
Isto é uma historinha de férias, não leva a nada, passatempo. Se ele tivesse amigos por ali, diriam come essa mina logo, cê tá marcando, cara. Se ela tivesse amigas ali, discutiriam cheiros, volumes, investigariam saldos no talão de cheques. Sem ninguém, na real: ele a deixava ou ela o deixava. Era só, depois iam dormir. Então sonhavam um com o outro no escuro.
Enquanto digo: minha esposa, amiga, puta, namorada - te quero. Enquanto digo: meu marido, amigo, macho, príncipe encantado - te quero.
Correram juntos pela praia sem falar nada. Mas tudo em qualquer movimento dizia que pena, baby, o verão acabou. Nenhum laço, alguma segurança, pura liberdade. Maduros, prontos. À espera.
Ela falou que bom encontrar você no meio de gente tão medíocre, ele sorriu envaidecido. Ele disse nunca pensei encontrar uma mulher como você num lugar como este, ela sorriu lisonjeada. Ele esticou a perna, o pé dele ficou bem ao lado do pé dela. Como por acaso, o pé dele debruçou sobre o pé dela. Ela deixou - último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end - sem happy? Ela suspeitou que ele a achava uma coroa meio chata porque afinal, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais. Ele suspeitou que ela o achava um cara inteiramente careta porque, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais.
Eles se olharam com tanta suspeita e compreensão. Mas era o último dia, puro verão, e não estavam nem um pouco a fim um do outro, que pena.
Dançaram, sempre dançavam. Quase não disseram nada. Eu sou uma mulher tão sozinha, ela disse de repente. Eu sou um homem tão sozinho, ele disse de repente.
Apertaram-se tanto um contra o outro, sem nenhuma intenção, só enlevo mesmo. Eles eram tão caretas e carentes, eles estavam tão perdidos no meio daquela fantasia que já ia acabar. Ela era só uma moça querendo escrever um livro e ele era só um moço, mas se realimentando um do outro para. Para quê? Eles pareciam não ter a menor idéia.
O cheiro dele era tão bom nas mãos dela quando ela ia deitar, sem ele. O cheiro dela era tão bom nas mãos dele quando ele ia deitar, sem ela. O corpo dela se amoldava tão bem ao dele, quando dançavam. Ele gostava. Ela gostava quando, depois de muito tempo calada, ele pegava no seu queixo perguntando - o que foi? Ele gostava quando ela dizia sabe, nunca tive um papo com outro cara assim que nem tenho com você. Ela gostava quando ele a abraçava e a fazia deitar a cabeça no ombro dele para olhar longe, no horizonte do mar, até que tudo passasse, e tudo passava assim desse jeito. Ele gostava tanto quando ela passava as mãos nos cabelos da nuca dele, aqueles meio crespos, e dizia bobo, você não passa de um menino bobo.
Como nas outras noites, ele a deixou na porta, pela última vez. Mas diferente das outras noites, ela o convidou para entrar. Ele entrou. Ela parecia de repente muito segura. Ele aceitou, só um pouquinho. Ele fechou os olhos, ela fechou os olhos. Ficaram rodando, olhos fechados. Muito tempo, rodando ali sem parar.
Ele disse:
- Eu não vou me esquecer de você.
Ela disse:
- Nem eu.
Ele afastou-a um pouco, para vê-la melhor. Ele a viu melhor, então: uma mulher um pouco magra, um tanto tensa, cheia de idéias, muito nova - e tão doce. As duas mãos apoiadas nos ombros dele, assim afastando os cabelos, no mesmo momento ela o viu melhor: um homem não muito alto, ar confuso, certa barriga, muito novo - e tão doce. Que grande cilada, pensaram. Ficaram se olhando assim.
Ela não suportou olhar tanto tempo. Virou de costas, debruçou-se na janela, feito filme. Então ele veio por trás. Tocou-a devagar no ombro nu moreno dourado sob o vestido decotado, e disse:
- Sabe, eu pensei tanto. Eu acho que.
Ela se voltou de repente. E disse:
- Eu também. Eu acho que.
Ficaram se olhando. Completamente dourados, olhos úmidos. Seria a brisa? Verão pleno solto lá fora.
Bem perto dela, ele perguntou:
- O quê?
Ela disse:
- Sim.
Puxou-o pela cintura, ainda mais perto.
Ele disse:
- Você parece mel.
Ela disse:
- E você, um girassol.
Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro.
Se puder sem medo (Oswaldo Montenegro)

Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Alfabeto do amor

Vou cantar de A a Z
Prá falar tudo
Que eu quero
De você
A de Amor
B de Beijo
C de Calor
D de Desejo
E de Encanto
F de Fixação
G de Gamo
H de História da paixão
I Insuportável viver sem você
J que Jamais vou te esquecer
L da Lembrança que ficou
M dos Momentos de amor
N Nada vai nos separar
O Obrigado por ficar
P de Paixão que vai rolar
Q Quero sempre te amar
R da nossa Realidade
S "S" pode ser Saudade
T Te quero de verdade
U de Única
V de Vontade
Vontade de te amar
X e Z eu não preciso nem dizer
N Nada vai nos separar
O Obrigado por ficar
P de Paixão que vai rolar
Q Quero sempre te amar
R da nossa Realidade
S "S" pode ser Saudade
T Te quero de verdade
U de Única
V de Vontade
Vontade de te amar
X e Z eu não preciso
Nem dizer
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Perdão (Tati B.)

Obviamente não posso contar aqui de quem se trata, mas peço que vocês imaginem a pessoa mais bonita, mais educada, mais elegante, mais rica, mais charmosa, mais inteligente, mais cheirosa, mais bem sucedida, mais dentes perfeitos, mais voz de deuses inventores do testosterona, mais ombros largos, mais cabelo de comercial de cueca (também não sei o que quis dizer com isso, mas vejo o cabelo dele e penso numa cueca importada, de seda preta, cheirosa, com firme malemolência), mais barriga tanquinho e mais congela respirações em restaurantes. Até o pescoço do cara é bonito, com um traço reto que sai do centro da sua orelha e vai até o princípio de sua horizontal e perfeita clavícula de nadador. Até a canela, até o queixo, até o cotovelo, até a unha levemente rosada do dedão.
O cara é perfeito. Daqueles que não vemos andando por aí, nas ruas, nos cinemas, nas casas de amigos, nos lugares que frequentamos. Que também não vemos naquelas festas mais frescas que, por alguma razão misteriosa, por algumas vezes encaramos, curiosos, querendo pertencer à nata. Não é um tipo de ser que se vê, se tem por perto, se sabe, se ouve falar. Nem sei explicar direito. Às vezes, no meio de alguma conversa acalorada, (e meu calor quase nunca é pelo teor intelectual do que levantamos) me pergunto mesmo se meus remédios para pânico não me fizeram ver miragens. Esse ser existe? Alguém com esse tamanho de mão, existe? Alguém com esse inchaço de lábios, existe?
Criado por sete babás suíças e tendo como primeiros bichinhos de estimação cavalos brancos treinados para amar, o homem anda como um príncipe do bem numa super produção de Hollywood. E deve trepar como uma produção asiática bem forte e lenta. E ri como um comercial ruim e caro de pasta de dente. E discorda com uma ironia doce que me faz concordar com qualquer coisa que venha perfumada por seu hálito perfeito, qualquer mesmo, aliás, que coisa? Não posso, não consigo, ouvir. Ouço seu uououououo, mas não sei o que o canto do sereio estelar quer dizer exatamente. Só sei que se ele não tiver razão, a razão perdeu a razão.
Sua beleza é tanta que me sinto em falta com o cosmos. Sua superioridade é tanta que juro, baixinho, pra mim: nunca mais vou usar aquele pijama amarelo com ursos e o pote de mel, nunca mais vou sentar corcunda em restaurantes, nunca mais vou preferir os sapatos confortáveis, nunca mais vou comprar edredom na M. Martan, nunca mais vou ficar sem depilar só para os pêlos crescerem bastante e não ficaram encravados. Nunca mais, oh, Deus, oh rei, nunca mais. Sim, aceito um chá, e arrumo o óculos, séria.
Ele então começa a me contar. Sua história. Como conseguiu isso, aquilo, aquilo mais, aquilo outro. E eu o escuto, pensando, enquanto ele coordena cronologias e tons, uma única frase que se repete a cada segundo: quequeéisso! Só isso.
Isso não é um homem, é uma ofensa pra humanidade. É ele quem deveria pedir desculpas. Perdão por eu não combinar com o mundo. Eu sei, eu sei, nem eu aguento a minha beleza. Eu mereço mesmo sumir, pode me comer. Inteiro. Perdão, perdão.
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