sábado, 30 de janeiro de 2010

A mensagem (Clarice L.)


A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarçar o aceleramento do coração.
Mas há muito tempo - desde que era jovem - ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termos de “coincidência”. Ou melhor - evoluindo muito e não acreditando nunca mais - ele considerava a expressão “coincidência” um novo truque de palavras e um renovado ludíbrio.
Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntária que a verdadeiramente espantosa coincidência dela também sentir angústia lhe provocara - ele se viu falando com ela na sua própria angústia, e logo com uma moça! Ele que de coração de mulher só recebera o beijo de mãe.
Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim poder falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moça! Conversavam também sobre livros, mal podiam esconder a urgência que tinham de pôr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez não porque a expressão fosse mais uma armadilha de que os outros dispõem para enganar os moços. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angústia, fosse pessoa de confiança. Nem em missão ele falaria jamais, embora essa expressão tão perfeita, que ele por assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.
Ela mesma também passou a ostentar com modéstia aureolada a própria angústia. Híbridos - ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e sem terem ainda uma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente - híbridos eles se procuravam, mal disfarçando a gravidade. Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrédula aceitação da coincidência: ele, tão original, ter encontrado alguém que falava a sua língua! Aos poucos compactuaram. Bastava ela dizer, como numa senha, “passei ontem uma tarde ruim”, e ele sabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audácia entre ambos.
Até que também a palavra angústia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever.) A palavra angústia passou a tomar aquele tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar em angústia. “Eu já superei esta palavra”, ele sempre superava tudo antes dela, só depois é que a moça o alcançava.
E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a única mulher angustiada. Apesar disso lhe conferir um caráter intelectual, ela também era alerta a essa espécie de equívocos. Pois ambos queriam, acima de tudo, ser autênticos. Ela, por exemplo, não queria erros nem mesmo a seu favor, queria a verdade, por pior que fosse. Aliás, às vezes tanto melhor se fosse “por pior que fosse”. Era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por não julgá-la capaz. Eles tomavam cuidado.
Mas, naturalmente, havia a confusão, a falta de possibilidade de explicação, e isso significava tempo que ia passando. Meses mesmo.
E apesar da hostilidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mãos que estão perto e não se dão, eles não podiam se impedir de se procurar. Eles não podiam deixar de se procurar porque, embora hostis, eles acreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O coração ofendido de ambos não perdoava a mentira alheia. Eles eram sinceros. E, por não serem mesquinhos, passavam por cima do fato de terem muita facilidade para mentir - como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginação. Assim continuaram a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros. Aqueles outros que nada faziam senão viver. Vagamente conscientes de que havia algo de falso em suas relações. Quanto a amor, eles não se amavam, era claro. Ela até já lhe falara de uma paixão que tivera recentemente por um professor. Ele chegara a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrível bater de coração, que um rapaz é obrigado a resolver “certos problemas”, se quiser ter a cabeça livre para pensar. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu pai sabia.
O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Que máximo?
Que é, afinal, que eles queriam? Eles não sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores até poder sozinho galgar a maior, a difícil e a impossível; usavam-se para se exercitarem na iniciação; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para que enfim - cada um sozinho e liberto pudesse dar o grande vôo solitário que também significaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outro ser desastrado, um culpando o outro de não ter experiência. O que é, afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o quê? Eram uns desastrados.
Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forçando uma continuação da compreensão inicial e casual que nunca se repetira - e sem nem ao menos se amarem. O ideal os sufocava, o tempo passava inútil, a urgência os chamava - eles não sabiam para o que caminhavam, e o caminho os chamava. Um pedia muito do outro, mas é que ambos tinham a mesma carência.
Um modo possível de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, por coincidência, caísse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? ou mesmo encontra¬rem-se por coincidência na velha noite de lua e vento? E a desconfiança de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa: que um dia serão caçados. Eles já tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar. E, para caçá-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita lábia, e um carinho ainda mais cauteloso - um carinho que não os ofendesse - para, pegando-os desprevenidos, poder capturá-los na rede. De tão longamente ludibriados, vaidosos da própria amargura, tinham repugnância por palavras, sobretudo quando uma palavra - como poesia - era tão esperta que quase exprimia, e aí então é que mostrava mesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnância pela maioria das palavras, o que estava longe de facilitar-lhes uma comunicação, já que eles ainda não haviam inventado palavras melhores: eles se desentendiam constantemente. Eles eram medrosos, científicos, exaustos de experiência. Na palavra experiência, sim, eles falavam sem pudor e sem explicá-la: a expressão ia mesmo variando sempre de significado. Experiência às vezes também se confundia com mensagem. Eles usavam ambas as palavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.
Aliás, não aprofundavam nada, como se não houvesse tempo, como se existissem coisas demais sobre as quais trocar idéias. Não percebendo que não trocavam nenhuma idéia.
Bem, mas não era apenas isso, e nem com essa simplicidade. Não era apenas isso: nesse ínterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o coração do tempo era o sobressalto e havia aquele ódio contra o mundo que ninguém lhes diria que era amor desesperado e era piedade. O tempo ia passando, nenhuma idéia se trocava, e nunca, nunca eles se compreendiam com perfeição como na primeira vez em que ela dissera que sentia angústia e, por milagre, também ele dissera que sentia, e formara-se o pacto horrível. E nunca, nunca acontecia alguma coisa que enfim arrematasse a cegueira com que estendiam as mãos e que os tornasse prontos para o destino que impaciente os esperava, e os fizesse enfim dizer para sempre adeus.
Talvez estivessem tão prontos para se soltarem um do outro como uma gota de água quase a cair, e apenas esperassem algo que simbolizasse a plenitude da angústia para poderem se separar.
Nessa tarde a moça estava de dentes cerrados, olhando tudo com rancor ou ardor. O dia estava pálido, e o menino mais pálido ainda, involuntariamente moço, ao vento, obrigado a viver. Estava porém suave e indeciso, como se qualquer dor só o tornasse ainda mais moço, ao contrário dela, que estava agressiva. Informes como eram, tudo lhes era possível, inclusive às vezes permutavam as qualidades: ela se tornava como um homem, e ele com uma doçura quase ignóbil de mulher. Várias vezes ele quase se despedira, mas, vago e vazio como estava, não saberia o que fazer quando voltasse para casa. Apenas um sétimo sentido de mínima escuta ao mundo o mantinha, ligando-o em obscura promessa ao dia seguinte.
Talvez tudo tivesse vindo de eles estarem com a procura no rosto. Com uma indagação muito maior do que a pergunta que tinham no rosto, eles se haviam voltado incautelosamente ao mesmo tempo. Tinham sido capturados.
Boquiabertos, na extrema união do medo e do respeito e da palidez, diante daquela verdade. A nua angústia dera um pulo e colocara-se diante deles - nem ao menos familiar como a palavra que eles tinham se habituado a usar.
A moça olhava adormecida. Quanto ao rapaz, seu sétimo sentido enganchara-se e ele sentia na ponta do fio um mínimo estremecimento de resposta. Mal se movia, com medo de espantar a própria atenção. A moça ancorara-se no espanto, com medo de sair deste para o terror de uma descoberta. Mas, se antes eles tinham sido forçados, agora, mesmo que lhes avisassem que o caminho estava livre para fugirem, ali ficariam, presos pelo fascínio e pelo horror. Mas e o futuro?! Oh Deus, dai-nos o nosso futuro.
A moça desviou subitamente o rosto, tão infeliz que sou, tão infeliz que sempre fui - porque na sua avidez ela era ingrata com uma infância que fora provavelmente alegre.
Quanto ao rapaz, ele rapidamente perdia pé na vaguidão como se fosse ficando sem um pensamento e ele agora não tinha nenhuma ajuda das palavras dos outros: exatamente como temerariamente aspirara um dia conseguir. Só que não contara com a miséria que havia em não poder exprimir.
Verdes e nauseados, eles não saberiam exprimir. Procurar a expressão, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergência que pouco a pouco os afastaria da perigosa verdade - e os salvaria. Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, já tinham inventado para eles mesmos um futuro. Agora, espantados, tinham finalmente o que haviam perigosa e imprudentemente pedido: eram dois jovens realmente perdidos. Como diriam as pessoas mais velhas, “eles estavam tendo o que bem mereciam”. E eram tão culpados como crianças culpadas, tão culpados como são inocentes os criminosos. Ah, se ainda pudessem apaziguar o mundo por eles exacerbado, assegurando-lhe: “Estávamos apenas brincando! Somos dois impostores!” Mas era tarde. “Rende-te sem condição e faze de ti uma parte de mim que sou o passado” - dizia-lhes a vida futura. E, por Deus, em nome de que poderia alguém exigir que tivessem esperança de que o futuro seria deles? Quem?! Mas quem se interessava em esclarecer-lhes o mistério, e sem mentir? Havia por acaso alguém trabalhando nesse sentido? Dessa vez, emudecidos como estavam.
“Meio que chorar nessa hora é bem de mulher”, pensou ele do fundo de sua perdição, sem saber o que queria dizer com “essa hora”. Mas a moça saiu de tudo isso pintada com batom, com o ruge meio manchado, e enfeitada por um colar azul. Pois ela, volta e meia, era uma mulher.
Despediram-se e eles, que nunca se apertavam as mãos porque seria convencional, apertaram-se as mãos, pois ela, na falta de jeito de em tão má hora ter seios e um colar, ela estendera desastradamente a sua. O contato das duas mãos úmidas se apalpando sem amor constrangeu o rapaz como uma operação vergonhosa, ele corou e olhou-a, espantado de ter sido ludibriado pela moça tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que acabavam de crescer.
Alguma coisa incômoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiança o tomava. Mas o que era?! Urgentemente, inquietantemente: o que era?
Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava também assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glória, e uma experiência insondável dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome ávida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossível? Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? para lembrar-se de uma cláusula? Para que ela ou outra qualquer não o deixasse ir longe demais e se perder? Para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro?
Que é! mas afinal que é que está me acontecendo? assustou-se ele.
Nada. Nada, e que não se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilação, nada mais que isso, não havia perigo.
Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Mas dentro desse sistema de duro juízo final, que não permite nem um segundo de incredulidade senão o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua - e tudo agora estava estragado e seco como se ele tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Preciso


Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim - de fora, de dentro da casa - até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.
- Tu não avisaste que vinha - ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como “que saudade”, “seja bem-vindo”, “que-bom-ver-você” ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil (ignorante).
Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos.
- Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.


Eu preciso de você. Eu preciso ter você aqui, para me acalmar e dizer o que fazer com esta lassidão que não me deixa e eu preciso disso logo, para conseguir dormir.
Eu preciso outra vez ver a cor dos seus olhos e preciso ouvir a sua voz, mesmo distante, mesmo com palavras ásperas – aquelas que outrora evitava.
Eu preciso entrar sempre por aquela porta, mesmo que precise também sair correndo logo depois e preciso do seu sorriso para poder sorrir.
Preciso que me ensine novamente a caminhar e sempre que tropeço preciso das suas mãos para me levantar. Eu preciso que me julgue e me corrija. Preciso urgentemente de um abraço - sem que este seja de despedida. Que reclame comigo das minhas roupas sujas misturadas com as limpas, do meu espírito de riqueza, da minha timidez e das minhas caras feias. Que insista para que eu procure coisas na internet para que eu divida um pouco de tempo que dedico ao computador, com você.
Preciso que faça tapioca de tardezinha, cuscuz à noite e em dias frios não me permita pôr os pés fora de casa. Preciso que me pergunte se já tomei os remédios todos e me obrigue a ir ao médico – mesmo sabendo do meu medo de médicos. Que diga que não entendeu a piada, só para eu lhe explicar. Que não goste dos meninos por quem me apaixono só por achar que nenhum deles é bom o bastante para mim.
Preciso que reclame nesse natal, das compras que fiz no natal passado ainda. Que assista filmes de faroeste enquanto eu adormeço no sofá entediada. Preciso que você continue a crer que eu ainda sou moleca, mesmo já “velhinha”. Preciso que me conte as histórias da sua juventude, dos bailes que você frequentava e quando estou longe preciso das músicas que quando você ouvia e lhe lembravam seu passado.
Preciso que você me acorde cedo aos domingos pra levá-la à feira, que grite quando eu acordar ou dormir tarde e que brigue comigo quando eu brigar com você.
Preciso de você para ver os velhos álbuns de família, rir do modo como você se vestia e lhe ouvir retrucar: “Era a última moda na época”. Que me faça calar quando estiver errada e que sinta orgulho de mim. De lembrar-me de como é bom tê-la por perto.
Preciso me deitar agora, está tarde, estou longe dos seus olhos. E lembro que se estivesse aqui já teria me mandado ir dormir. Mas antes preciso rezar para papai do céu pedindo que ele lhe guarde. Ah, é bom também agradecer, só para ter certeza de que ele não vai esquecer que eu não saberia o que fazer da minha vida sem você.

P.S.: Eu sei por que a gente não se entende. Você também sabe. 60 anos é muito tempo. Feliz aniversário!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Se eu fosse você


Se eu fosse você, eu me procuraria. Me amaria. Sentiria saudades de mim. Choraria, à noite, sozinho no quarto.
Se eu fosse você perguntaria sobre mim a todos meus amigos. Olharia minhas fotos. Lembraria de mim a todo instante.
Se eu fosse você sentiria vontade de sair correndo pra procurar por mim. Me mudaria pra casa vizinha a minha. Sumiria com todos os outros homens do mundo pra me ter só pra você.
Se eu fosse você me olharia todo dia. Me desejaria todo momento. Estaria sempre no mesmo lugar que eu.
Se eu fosse você, eu me amaria bem mais. Me ligaria e me diria tudo isso. Exatamente assim.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Celebração do inútil desejo (Jota Quest)


Por que você me faz
Andar sem rumo agora
Se não existe sentido
Pra nossa falta de destino?
Por que você me faz
Andar na contramão
E ver em mim pedaços
Que eu nunca conheci?
O que eu preciso saber
Pra te ter comigo de novo
Eu por exemplo,tatuaria em mim
Todas as telas do mundo
Por um sorriso teu... sincero
Por um sorriso teu...sincero
Por que você me faz
Correr tanto
Se uma flor arrancada
Não sobrevive mais que alguns minutos?
Por que você me faz
Andar pra trás se o mundo
Pára e perde a graça
Quando eu te vejo assim partindo
Nem a sede do teu corpo
Bebendo agua em outro
Nem os teus desejos coloridos
Me fazem desistir
E me calam a boca
Por um sorriso teu...sincero
Por um sorriso teu...sincero
Por um sorriso seu...sincero
Celebração do Inútil desejo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O resto das coisa (Tati B.)


O resto das coisas, eu me digo baixinho, você ainda tem todo o resto das coisas.
Para não enlouquecer sem você, eu me agarro àquela lembrança desfocada e amarelada de que existe vida lá fora, e me pego tentando lembrar, com um esforço que quase me faz esquecer você por alguns segundos, o que seriam mesmo essas coisas.
O que sobra quando você sai é um dia claro que me pede para dar um passo, apenas um passo. Mas eu fico dura que nem pedra para não desmontar e me espalhar pelo mundo.
Não quero sujar nosso amor com a minha mania de amar despedaçada e esfarelada.
Eu endureço e esqueço o resto das coisas, porque quero ficar toda inteira pra quando você me quiser de volta.
Não quero ouvir ninguém, não quero saber de nada, não quero sentir nada. Quero esperar você voltar reta e dura como uma estátua, porque tenho medo de me espalhar pelo mundo e nunca mais ser sua.
Imagine se, por causa daquele longo adeus que eu dei e que nunca mais acabou, porque o adeus definitivo dói demais, você volta e me encontra sem as mãos? Imagine se você me encontra sem joelhos porque resolvi contar a Deus o quanto ainda confundo amor com escravidão?
Não posso ser uma mulher incompleta, tem tanto amor dentro de mim que, mesmo eu sendo inteira, quase já não cabe. Mas se eu der um passo, um passo apenas, eu vou deixar um rastro do que eu fui pra você e você vai querer voltar pra casa como um cachorrinho fiel, mas não vai mais ter casa.
Então eu cerro os olhos, trinco os dentes, fecho os punhos, engulo o ventre e espero você chegar, porque só você me vira do avesso sem perder nenhum grão de mim.
O resto das coisas do mundo quer sempre fazer trocas, o resto me dá vida, mas quer sempre meus pedaços.
E eu acho uma traição sair por aí dando pedaços do meu pulmão para ares mais leves, pedaços do meu coração para risos mais despretensiosos.
A vida fica surda sem você, porque o volume do mundo abaixa para ouvir meu grito interno. Sem você sinto essa felicidade sem som, como se, por maior que fosse um sentimento, ele já nascesse com defeito.
Eu sei que eu posso muitas coisas sem você, e eu sei que, se eu tomar um banho quente e comprar uma roupa nova, talvez eu possa querer uma coisa que seja, só uma, sem você.
Nada muda no mundo quando você não caminha ao meu lado, as pessoas quase não percebem que falta metade do meu corpo e que eu não posso ser muito simpática porque toda a minha energia está concentrada para eu não tombar.
Ninguém deixa de espreguiçar só porque você não está aqui, ninguém deixa de molhar a torrada no café e de falar com voz idiota enquanto boceja.
E eu odeio o mundo por isso, eu acho o mundo muito medíocre, eu tenho pena de todas essas pessoas que não sabem o que é encaixar o rosto no vão das suas costas e querer ser embalsamado ali por mil anos.
Amor de verdade não acaba, é o que dizem, mas eu tenho medo. Eu tenho medo dos meus pedaços espalhados pelo mundo, eu tenho medo do vento passar enquanto eu estou míope, e eu ficar míope pra sempre.
Eu tenho medo de tudo isso apagar e o vento levar suas cinzas, desse fogo todo ser de palha, como dizem. Da dor que se dissipa a cada respirada mais funda e cheia de coragem de ser só.
Eu tenho medo da força absurda que eu sinto sem você, de como eu tenho muito mais certeza de mim sem você, de como eu posso ser até mais feliz sem você.
Pra não pensar na falta, eu me encho de coisas por aí. Me encho de amigos, bares, charmes, possibilidades, livros, músicas, descobertas solitárias e momentos introspectivos andando ao Sol.
E todo esse resto de coisas deixa ao pouco de ser resto, e passa a ser minha vida, e passa a enterrar você de grão em grão, sujando seus dentes e olhos e nada eu posso com a pá que está na minha mão.
Mas lembrar de você ainda tem o poder de congelar a natureza, de estancar a fresta aberta, de me fazer preferir o demônio quente na testa. Lembrar de você e de como é bom percorrer cada detalhe de tudo o que é seu ainda é melhor do que ser só minha ou me dissipar por aí, para sentir a leveza de querer um pouco de tudo e não muito de uma coisa só.
O resto das coisas continua encapado por um plástico vagabundo, pedindo que eu espere mais um pouco para rasgar tudo e voltar. Minha vida ficou velha quando te conheci e todo o esforço que eu faço para não morrer a cada segundo longe de você, é a lembrança de um velho caminhão de mudanças cheio de quinquilharias, sem rumo e perdido.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Gosto assim, do meu jeito


“Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exatas. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.”

E logo me perguntam, assim como para tu, o que é que nós fazemos que ainda não estamos juntos. Tu dizes que é questão de tempo. E eu acho que não tem mais jeito. Mas meus amigos todos estão ao seu favor. Mostram-me que nenhum outro garoto que já cruzou meu caminho, nessas esquinas por onde passo todos os dias – ainda que sejam dias de sol - indo ou vindo, fora tão bom – nem mesmo aquele que faz música e que brilham os olhos ao me admirar. E ficam me descrevendo tuas qualidades, como se eu já não soubesse. Que tua voz é linda, que teu jeito – meio sem jeito - é o meu jeito, que tu podes modificar o que eu não gosto e que tu precisas de alguém assim como eu. Como se eu não repetisse todos os dias - desde o primeiro dia – o porquê de ter me apaixonado por ti. E me contam tudo sobre nós dois e o quanto combinamos. E me perguntam por que não aceito imediatamente teu pedido. E com uma dor quase muda, que lateja em dias frios, respondo que creio eu que tu não estás hábil a me amar como eu mereço. Talvez nunca tenha te dito, ou cochichado, ou deixado claro nas entrelinhas, mas me é bom te ter por perto. Ainda que sejam apenas – deste sentimento – versos meus, não duvido do teu sentir. Então faço questão de repetir para que tu nunca me esqueças. E para que tu te acostumes assim, com o meu querer. O teu cheiro soa caloroso em minha pele. E tu cai-me bem, como luva de lã em dedos gelados, como água fria em corpo sedento. E te sou. E tu me és. E assim, suportamos um ao outro. Tu, com teu medo de ter alguém, e eu, com meu medo de não te ter. A verdade dói, mas é o que eu penso. Da próxima vez que me perguntarem por que te disse não, vou dizer que foi por que tive a plena certeza de que tu não querias que eu te dissesse sim, vou dizer que este é o motivo. Deste modo parece fazer mais sentido.

Um ano! Aliás, 365 dias de sol.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A beira do mar aberto (Caio F.)


É por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, enquanto meus dentes arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens, escurecido pela tua ausência,e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim, nem agora, nem aqui.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O não que tinha alma de sim (Tati B.)


Só quem tem o poder de te fazer sentir viva, pode fazer você se sentir morta. Só quem arrepia cada centímetro do seu corpo e faz você sentir o sangue bombear num ritmo charmoso, é capaz de estragar o mundo quando parte. Só quem tem o poder de tornar o mundo leve e fazê-la flutuar, também pode afundar sua noite e fazer com que seu corpo se arraste pelos restos que sobraram da festa. Aonde está a força de negar um desejo se enquanto ele não é saciado continua existindo? Desejos nascem, ocupam lugares interessantes do seu corpo, e não morrem antes de um formigamento exausto de prazer, uma manhã suja de arrependimentos, hálitos estragados de amargura e clicks que a vida nos dá, também chamados de momentos de verdade, que em muito se parecem com toques de mágica para você sair do estado encantado e falso da imaginação. O tempo não se encarrega de matar desejos, apenas de substituir os personagens. Você pensa que é forte sendo moralista, respirando fundo, contando até mil, sumindo da festa, rezando, desviando sua atenção, mas ele está lá, num bar com amigos, te olhando de longe. E ele continua lá mesmo depois que o táxi o levou, meio embreagado, para casa. Ele está no vazio que deixou, na dúvida de como poderia ter sido, na esperança do próximo encontro, na consciência leve pela negação e pesada pela cobrança de um tesão ainda latente. Pecados existem, não os julgados por Deus, não as pecuinhas julgadas pelos humanos. Pecados existem dentro dos corações traidores. Mas se antes meu coração ardeu e se assustou de pecados, agora ele chora de saudade, de covardia e de aceitação. Ele está puro e nem por isso tranqüilo. Esse é o maior problema dos desejos, eles não aceitam não como resposta. Você só coloca um ponto final nele se for até o fim. E o fim pode ser um simples enjôo ou, na pior das hipóteses, a morte. Mas você viveu. Para matar um desejo é preciso viver, nem que depois você morra junto com ele. Indo embora para casa, segurei o peito, que parecia solto, e abafei uma lágrima. Como eu queria agora estar com ele. Por aquelas três horas pagas de delícias e mais meia de arrependimento na hora de se vestir. Por aqueles segundos de esquecimento, mais meses de lembrança. Por algumas palavras idiotas, mais muitas contidas para não parecer idiota. O desejo me acompanhou até em casa. Muito , muito mais forte que minha nobreza em ter dito não. Ele está lá. No seu coração, na sua mente, no cheiro que você carrega junto com seu passado. Ele está em cada batimento cardíaco contraído da sua vagina, em cada torção contraída do seu estômado, em cada momento descontraído de seus hormônios. Você está aqui. Em cada linha que eu escrevo tentando ser boa redatora, em cada momento correto que eu me agarro para não deixar você errar, em cada provocação estratégica para você nunca desistir de insistir em errar. Você está aonde eu quero chegar, em tudo que eu quero negar, muito presente. Não quero uma só uma escapadinha, não quero uma vida ao seu lado. Não quero nunca mais te ver. Queria ter dez minutos com você, o bastante para não mudar minha vida em nada. Quero outra vida. Não estou nem aí pra você. Só penso em você. Você é meu amigo, você é um conhecido, você foi a melhor noite da minha vida. Mais do que qualquer certeza, confusão é paixão. Quis demais que você fosse embora, quis demais que você ficasse pra sempre, quis não pensar, me agarrei numa lógica fria que berrou no meu ouvido que toda ação tem sua reação. Toda traidora tem seu dia de enganada. Toda vontade negada tem seu dia de câncer. Todo silêncio tem seu dia de grito desesperado. Entenda cada som, de cada letra, de cada palavra, de cada frase, de cada sentença, de cada idéia carregada de desejo, como um grito de cada parte do meu corpo que ficou lacônica quando sua presença física abandonou a festa. O desejo era tanto, que travei. Tive medo que você tirasse meus grampos e minha maquiagem, a roupa que vesti para seduzí-lo. Tive medo da hora de ir embora, a maior solidão de uma mulher é não poder dormir nos abraços do seu amado, pois ele é sua apenas por três horas. Tive medo da sua pressa, que sempre me ofende tanto. Tive medo da sua fidelidade. Você sempre me comeu muito bem, mas nunca me emprestou sem ombro, seu colo, sua mão, seu olhar carinhoso, seu suspiro, seu sono, sua fragilidade. Tive medo de ser só desejo, porque para mim sempre foi mais. Prefiro ser perseguida pelo meu desejo, que não tem dia para acabar, do que ser abandonada mais uma vez pelo seu, que dura no máximo três horas.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Tão sonhada (Banda Eva)


Arrumei a casa, preparei o coração
Esperando sua chegada, tão sonhada.
Vesti o melhor sorriso,
Espalhei pelo chão, o perfume da rosa mais enfeitada
Pra te colorir e te cobrir de bem querer!
Tá faltando você pra ficar perfeito,
Aprendi a amar assim do seu jeito,
E aceito ser seu e viver esse amor.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

She


"She may be the song that summer sings,
May be the chill that autumn brings,
May be a hundred different things
Within the measure of a day."


2.0, hoje!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Shoud I? (Verônica H.)


Dessa vez não vou evitar dizer o que está na minha cabeça só porque eu sei que minha mente capricorniana vai negar no dia seguinte, não fugirei de palavras bonitas porque quem diz não é uma pessoa perfeita, não arrumarei mil defeitos pra brigar contra as novecentas e noventa e nove qualidades, não desviarei meus olhos por medo de ter minha mente lida, não sumirei por medo de desaparecer, não vou ferir por medo de machucar, não serei chata por medo de você me achar legal, não vou desistir antes de começar, não vou evitar minha excentricidade, não vou me anular por sentir demais e logo depois não sentir nada, não vou me esconder em personagens, não vou contar minha vida inteira em busca de ter realmente uma vida.
Dessa vez não vou querer tudo de uma vez, porque sempre acabo ficando sem nada no final.
Estou apostando minhas fichas em você e saiba que eu não sou de fazer isso. Mas estou neste momento frágil que não quer acabar. Fiquei menos cafajeste, menos racional, menos eu. E estou aproveitando pra tentar levar algo adiante. Relacionamentos que não saem da primeira página já me esgotaram, decorei o prólogo e estou pronta pro primeiro capítulo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

É que simplesmente a gente esquece (Caio F.)


Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que o silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo.

Felicidade


É que às vezes ela vem sem que a gente perceba. Vem em uma viagem longa ou em algumas horas compartilhadas num domingo de primavera. Traz na bagagem os sonhos compartilhados - mesmo não realizados - e uma esperança boba indestrutível - como os laços que ela formou. Vem impregnada na pele, no sangue e principalmente no coração.

Menino (Mastruz com Leite)


Menino faz assim comigo, faz assim comigo não que eu me derreto toda
Carente do jeito que eu tô, você me aperta, me abraça, e ainda me beija a boca
Chegar devagarinho com jeitinho esse menino gosta mesmo é de namorar
Mas eu tenho um namorado e esse menino safado na conversar tá querendo é me enganar
Menino, faz assim comigo não
Se não vou ter que dividir meu coração

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Dia de sol


"Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado.
Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo."


Então tu me apareceste naquela noite de verão, sem pretensão alguma. E eu pensei – em primeiro instante – nem te olhar outra vez, mas aí quando dei por mim já estava perto demais de ti para me afastar, longe demais do resto mundo para voltar e dentro demais daquele sentimento para conseguir sair. E depois já imaginava pôr-do-sol e longas caminhadas na praia. Junto de ti - é claro -, de ti e de tudo de bom que soubeste acrescentar. No coração, e quem sabe dentro dele, lembranças manchadas de adrenalina. Nessas circunstâncias, esperando não estar errada deixei fluir, como se deixam as correntezas - elas podem te derrubar se tu ficares agitado e desorientado, mas se relaxares, a corrente provavelmente vai te manter na superfície. Em todo caso, aceitei. Fiquei. Deixei correr; percorrer. Mesmo com as incertezas desses caminhos tortuosos. Entre mãos que correm passageiras, filmes de ficção e flores murchas que entristecem meu jardim.
Ás vezes me vem um medo cada vez maior do que vou sentindo em todo esse tempo, temendo não saber decifrar as regras do teu jogo. Mas é só uma estranha sensação efêmera de tempo perdido, arrastado, prolongado. Como julgam os poetas e os loucos.
Era quente e intenso, no entanto, esse sentimento, chegava a latejar nos dias de inverno. Pelas vezes que fora esquecido em um canto qualquer da sala, ou do coração.
Todos os dias tu me vinhas e depois daquele doce Janeiro de paixões requentadas, de ilusões, de amores jurados em vão, eu me apaixonei por ti, sem reservas. Só me apaixonei. E pronto. E ponto.
Tu chegaste e me falaste sobre tantos lances que eu esperava ter ouvido. Falaste sobre música, família, planos e futuro que me veio à mente a idéia de que poderia ser tu, o cara dos sonhos. Surgiste assim, como se aparecem os sóis no inverno, no entanto te tornaste no meu verão, o meu dia de sol. Fundamental.
Façamos assim, desse jeito então. Eu te ensino a ser dócil, a gostar mais de poesia – principalmente das que escrevo para ti – se tu, sujeito-bacana-com-cara-de-playboy, me ensinar a ser doce, paciente e a ser feliz.