quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O destino desfolhou (Caio F.)


HÁ seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.
Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se.
Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia.
Depois dessa, havia outras.
Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.
De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo.
Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro.
Hoje - tantos anos depois, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo. Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Então, o que é amor pra você?


"- Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
- Mas o que isso tem a ver com amor?
- Bom, acontece que todos os dias ele dava carona pra uma moça. Ele saía do carro, abria a porta pra ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta pra entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir. ...acho que isso é amor."


- Eu nunca vi uma coisa para ter dado mais certo nessa vida do que nós dois: um doido e uma estressada - disse quando os braços dele a puxaram para si - e eu não me imagino sem você.
Ela exitaria como tantas outras, mas por esta, ela aceitou meio sem jeito de retribuir. E riram, todos que estavam lá e meus olhos se encheram de lágrimas acreditando que amor maior não há de existir. Dele por ela, que nunca fez questão de esconder. E dela por ele também, mesmo sem nunca ter sabido demonstrar.
Outrora, em meio a tormentos, momentos de incertezas, de ter vivido em vão, ele a espera transbordando em lágrimas e soluços. Ao chegar, em um longo e apertado abraço, como nenhum outro já visto, ela, sem entender, pergunta:
- Por que choras. Não há motivos para estar assim, estamos bem agora.
- É que, por um instante tive medo de morrer e nunca mais te ver. Por favor, nunca mais me deixe só.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Grandes esperanças


Hoje realizei todos os meus sonhos e como todo final feliz: foi horrível.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Primavera (Los Hermanos)


Primavera se foi e com ela meu amor
Quem me dera poder consertar tudo que eu fiz
O perfume que andava com o vento pelo ar
Primavera soprando pr'um caminho mais feliz
Mais feliz, pois a rosa que se esconde
No cabelo mais bonito, é um grito
Quase um mito, uma prova de amor
Primavera se foi, e com ela essa dor
Se alojou no meu peito devagar
A certeza do amor não me deixa nunca mais
Primavera brilhando em seu olhar
E o olhar que eu guardo na lembrança
Ainda traz a esperança
de te ter ao meu ladinho numa próxima estação
Primavera se foi e com ela meu amor
Quem me dera poder consertar tudo que eu fiz
O perfume que andava com o vento pelo ar
Primavera soprando pr'um caminho mais feliz
Mais feliz, mais feliz,...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ah moço, quisera eu...


"E tanto faz.. de tudo o que ficou,
Guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita."


Ah moço, nesses dias que a saudade faz do meu coração moradia envolvendo o peito em agonia, quisera eu poder soprar essa saudade no ar e deixar o vento levá-la até a porta do teu coração.
Ah moço, nesses dias que me reviro pelo avesso tentando te arrancar de dentro de mim, quisera eu poder fazer crescer um pedaço meu dentro de ti.
Ah moço, nesses dias que duelam passado e presente, o ontem e o agora se digladiando, tento me despir das lembranças desbotadas, jogar passados murchos de tempo pela janela, me desfazer de velhas histórias, quisera eu poder fazer da tua vida um relicário das nossas melhores memórias.
Ah moço, nesses dias que o teu nome faz em mim sinfonia, enlouquecendo-me doce e calmamente, quisera eu poder fazer meu nome uma canção cantarolando a mesma melodia ao pé do teu ouvido.
Ah moço, nesses dias que latejam as feridas quase curadas por baixo das cicatrizes quase imperceptíveis, quisera eu poder tatuar no teu corpo as feridas, marcas e dores desse amor.
Ah moço, nesses dias que o coração fica amiúde de tristeza, apertado em meio a dor que rouba cada centímetro de alegria, sufocado pelo choro incessante, quisera eu poder apertar o teu coração dilacerando-o, esmagando-o em melancolia.
Ah moço, nesses dias que a tua ausência faz nublar os meus olhos, quisera eu poder fazer um sereno de saudade minha banhar o teu coração.
Ah moço, nesses dias que a minha vida deseja entrelaçar-se com a tua vida outra vez, quisera eu poder mandar nos teus passos e fazer nossos destinos se encontrarem num domingo de Sol à beira mar.
Ah moço, nesses dias que a tua presença é somente espera, quisera eu poder fazer florescer lembranças minhas no âmago do teu íntimo. Quisera eu poder nesses dias que a saudade me aprisiona nas tuas lembranças trancar o meu baú de recordações empoeiradas de sorrisos bobos-sinceros e deixar que tu nunca escapes, mas se escapares que seja sem regresso.
Ah moço, nesses dias que o baú de lembranças se abre e espalha na memória retalhos de velhas recordações, remexendo o passado e bagunçando o presente com recortes de ontens perdidos, quisera eu poder guardar no teu baú de lembranças a sete chaves uma recordação minha sabor felicidade.
Ah moço, quisera eu...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Se se morre de amor (Gonçalves Dias)


"Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!"

domingo, 13 de dezembro de 2009

Eu nunca vou entender (Tati B.)


Mais um domingo que você me liga. Igual faz a uns quatro ou cinco anos. Você beija a sua mãe depois do churrasco, dá um oi carinhoso e finalmente pensa sem culpa na sua ex, cheira sua camiseta pra ver se a coisa tá muito feia e descobre que sua vida está prestes a ficar vazia: chegou a hora de me ligar.
Você não sabe ao certo o que vê em mim, mas também não sabe ao certo o que não vê. Você sabe que pode ter uma mulher mais gostosa do que eu, mas por alguma razão prefere a gostosa garantida, aquela que ainda ri das suas piadas. Mesmo sendo as mesmas piadas há quatro ou cinco anos.
Aí você me liga, com aquele ar descompromissado e meigo de quem só quer ir no cinema com uma velha amiga. Eu não faço a menor idéia do que vejo em você, mas também não faço idéia do que não vejo. Eu posso ter um cara mais gostoso, como de fato já tive milhares de vezes. Mas por alguma razão prefiro suas piadas velhas e seu jeito homem de ser. Você é um idiota, uma criança, um bobo alegre, um deslumbrado, um chato. Mas você é homem. E talvez seja só por isso que eu ainda te aguente: você pode ter todos os defeitos do mundo, mais ainda é melhor do que o resto do mundo.
Aí a gente, sem saber ao certo o que está fazendo ali, mas sem lugar melhor para estar, acaba pulando o cinema que nunca existiu e indo direto ao assunto. O mesmo assunto de quatro ou cinco anos que, assim como as suas piadas, nunca cansam ou enjoam.
E aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. Mesmo quando não é bom, mesmo quando cansado e egoísta você não espera por mim e vira pro lado pra dormir ou pra voltar à sua bolha egocêntrica de tudo o que é seu, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos quatro ou cinco anos, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronta pra começar algo, pra tomar um café de verdade, pra passear de mãos dadas no claro, pra poder te apresentar ao sol sem receber mensagens de gente louca ou olhares curiosos, pra escutar uma piada nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu caminho que sempre é interrompido pelo vazio da sua camiseta fedendo a churrasco. Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber porque a vida é assim. Eu nunca vou entender porque a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender porque você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que você quer, mas as nossas exatidões não funcionam numa conta de mais.
Eu só sei que agora eu vou tomar um banho, vou esfregar a bucha o mais forte possível na minha pele e vou me dizer pela milésima vez que essa foi a última vez que vou ficar sem entender nada. Mas aí, daqui uns dias, igual faz há uns cinco ou seis anos, você vai me ligar. Querendo pegar aquele cineminha, querendo me esconder como sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse amor. Me querendo no escuro. E eu vou topar. Não porque seja uma idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

O pequeno príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)


"Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol ...
— Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?
Mas o principezinho não respondeu."

É que simplesmente acaba


"Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu deus como você me doía de vez em quando. Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada. Só olhando e pensando 'meu Deus mas como você me dói de vez em quando'.

E agora eu me pergunto: Quando o amor acabou? Qual o momento exato, a fração de segundo, em qual dos beijos a gente já não era mais a gente? Entre qual filme eu deixei de gostar de você? Será que foi no momento em que o microondas apitou dizendo que a pipoca estava pronta? Será que o sorvete derretido na mesa ou o nascer do sol das manhãs que sucediam noites tão intensas de pedidos e promessas foi quem ditou o nosso fim? Se apenas eu soubesse quando isso aconteceu. O que fez de nós dois estranhos que apesar de nunca terem convivido juntos sabiam precisamente o número, o cheiro, os desejos - realizados ou não - e as manias um do outro? A gente presta atenção nos carros que passam do nosso lado e você não olha para traz. Nunca. Nossos beijos são o comprometimento de um velho encontro que já foge da nossa memória e nosso sorriso é marcado por uma impressão de fenecimento. Tomo banho de porta fechada e lá mesmo eu troco de roupa. Você não me pede mais livros emprestados e a gente nem divide mais batatas recheadas. Minha mania de morder os lábios agora te irrita. E eu olho para você do mesmo jeito que olho o vendedor de capinhas de controle remoto que atravessa a rua. Nossos planos futuros toam como besteiras adolescentes. Além disso não vejo mais graça no que você fala e você não lê mais o que eu escrevo - "de besta". Assim como um texto, de uma linha para outra, simplesmente acaba. Como se parte uma casca, quebra-se uma moldura, racha-se o vidro e apaga-se o fogo. Do mesmo modo como acabam os perfumes, o sabor do chiclete, a infância e as primaveras.

Eu queria poder pegar nela (Clarice L.)


"Eu não vou pro inferno
Eu não iria tão longe por você
Mas vai ser impossível não lembrar
Vou estar em tudo em que você vê:
Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar
Eu vou estar"


Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

P.S.: Um amor assim. Isolado. Só meu e dele se ele quiser. Ah, se ele quisesse!