
"Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu."
Escuta aqui doutor: Outrora não haveria ponto final por sempre sobrar um pouco de esperança num cantinho escondido lá dentro de mim, onde quase sempre nenhuma mágoa fica e onde só tu conhecias. Não sou de guardá-las - as mágoas - e sempre as esqueço perdidas por aí. No entanto, encontrei-as camufladas, escondidas, querendo já esvanecer-se, todavia ainda fazendo doer.
Nunca havia me sentido tão viva como quando te conheci. O moço da cidade grande, de olhos de hortelã, que brilhavam com reflexos que pincelavam estrelas no meu coração.
Porém, os telefonemas mesmo rotineiros não conseguiram superar o tempo que passou longe, mesmo em frente, ou ao lado - sobre a mesma calçada, na mesma rua escura - embora movimentada - onde o mundo parece ser grande demais para abrigar algum sentimento que pudera passar a existir. Então assim, digo que desisto, que cansei, que emudeci de tanto que quis - no passado - estar do lado; presente. Nessas longas manhãs de flores em que estive assim, quieta e paciente, te aguardei com a esperança que nunca tinha me sido dada. Te guardei para mim, em um lugar onde só eu pudesse te sentir e onde fôssemos um, únicos nos nossos encontros e desencontros. Sem medo de dizer, ficarás para sempre no altar que preparei para o cara que chegou sem eu perceber, numa tarde de primavera onde tudo cantava feliz. E sem arrependimentos, sem aqueles olhares nostálgicos de antigamente, ou mesmo sem entender porque nossa história sempre acaba pela metade sem ao menos ter começado, permaneço ainda, e apesar da desesperança que me invade, acredito que nas próximas primaveras esse sentir floresça novamente e novamente e retorne como naquela tarde em que a menina se esqueceu seus velhos medos e resolveu se entregar ao homem que sem prometer nada, lhe fez a mulher mais feliz daquele mundo.