quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Ciranda de pedras (Lygia Fagundes Telles)
"Ouça, querida - disse-lhe Otávia certa vez -, não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual no seu lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossivel. O mal está presente no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa. [...]
Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. Este céu que nem promete chuva. Aquela estrelinha que esta nascendo ali... Está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros. Não fez nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil esta a Beleza. No inútil esta Deus.
Virginia apertou o ramo de rosas contra o peito. Inútil é o amor que eu tenho por você, quis dizer-lhe.
Não disse".
Ela (Caio F.)

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto.
sábado, 24 de outubro de 2009
Breve história de amor (Gabriela M.)
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Coisa de criança
"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei não é assim, mas deixa eu fingir e rir."
- Me entendes, garoto?! Preciso que sintas minha falta e necessito da tua presença constante ao meu lado para não me esquecer de ti.
- Eu sei, moça. Sei do prazer que sentes em ter-me em teus braços. Faço meus, os teus sonhos e te quero, como a ninguém. Só preciso que me ensines a amar de verdade, a sentir saudade, sentir as pernas tremerem de emoção.
- Enquanto estiveres no teu lugar acostumando-se com meu amor e guardando os passados. Enquanto eu me acostumo que tua falta de palavras seja apenas falta de palavras e não de sentimentos, esperarei por ti. Ainda não tendo um vozeirão daqueles que me derretem a alma, mas anda de carro como niguém, e ainda abre a porta. Não tocas violão, eu sei. Nem tem mais de um e oitenta como eu sonhei e nem um corpo perfeito de virar para ver. Não sabes cozinhar, não tens o cabelo comprido que tanto gosto e não sabes muito bem combinar as cores. Não tens tanta paciência comigo quanto eu pensei, mas sempre dizes a coisa certa. Às vezes não me fazes feliz como eu quero, mas acaba sempre fazendo a coisa certa. Então o jeito é aceitar e arriscar-se.
- É verdade moça. Nosso encontro foi daqueles que fogem do planejamento, mas se enquadram no plano de vida, nos sonhos... Em você, de um jeito profundo, urgente.
- Eu virei para as minhas amigas e disse: 'Acabo de ver o homem da minha vida!' Mesmo que parecesse brincadeira ou delírio, ou fosse precipitado. Assim pensei.
- Mas estamos distantes e agora preciso ir, recuperar algumas horas de sono perdidas. E, embora cansado, sinto valer cada momento que passei acordado. Ao teu lado. Pena que foram poucos.
- Isso não importa. Sua saudade dói aqui dentro, mas estou bem mesmo assim por que lembrastes de mim, por que tu - que não lembra nem que dia é hoje - lembrastes das noites de lua quando nos conhecemos e me fizera tão feliz ainda que fossem sentimentos efêmeros, do sentir apenas quando se está por perto.
- Assim sendo, deve ser só desejo. Coisa que vai-e-vem sem pedir licença. Que cansa e renuncia mas imediatamente - logo que se vê - quer de novo de volta. Coisa de criança.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Sobre minha ponte de ilusões

"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum.”
Eu, com medo da certeza de ser para sempre "nunca mais" que incomoda tanto que faz doer, faz faltar o ar, a cor, o bem. Seguir junto o mesmo caminho que tu dói, cansa, enlouquece, implora por querer, por sentir, por agir. Sentir falta emudece, escurece, desanima, esconde, entristece. Sobre a ponte de ilusões que construí pra ti, destrói, desilude, distancia-se, desaparece. Nas mesmas manhãs de solidão e idas e voltas de saudade, no mesmo corredor por onde caminha teu futuro passo quieta, amedrontada, pequena perto do tamanho da falta. E essa falta corroe, esvazia, explode, desagrada, inquieta, decepciona, castiga. Teu sorriso enterra, perturba, exlui, desequilibra. Despede mesmo ainda querendo ouvir, mesmo dizendo não, ou nada dizendo, parte, mesmo ainda desejando. Contraria, ignora, suplica, e por não poder proibir que meus olhos brilhem marejados os mantenho baixos e quase fechados para que não o confrontem quando passares por mim. Limita, culpa, fraqueja, desconsidera, desaprova, tortura, lamenta. Esfria, abala, desperdiça. Desiste, cede e não deixa ir.
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