terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tudo o que não me permiti sonhar (Fernanda Takai)


Resolvi deixar isso aqui por escrito de uma vez porque esses períodos de encantamento acabam, não é? Então melhor ficar com o registro de um sentimento bom que está pingando de mim no último ano. Mas já? Pensei que durasse uns meses, assim como a paixão à primeira vista. Eita, que é pra valer! O tempo passa mais rápido. Mas como é que tudo pára quando olho pra você. Pára e depois recomeça corrido pelas horas perdidas na contemplação. Contemplar não é perder tempo, é perder-se em pensamento por causa de alguma paisagem. E quando ela é humana nos leva embora mais ainda porque é complexa até nos quadrantes mais simples. Parei. Isso tudo não condiz com quem não tem coração mole. Eu queria mesmo é registrar: muito obrigada! Hoje você corre em minha direção e quer me abraçar e beijar a todo instante. Eu também! Isso passa - dizem os livros e as pessoas. Mas volta vez por outra. Quando esses momentos voltarem, eu gostaria de poder retribuir o mesmo amor. Se não, fica escrito, fotografado e filmado. Um dia você poderá recorrer a essas memórias. O que eu queria mesmo é que você soubesse. Eu agora estou preparada pra tudo. Já ganhei o que existe de melhor nessa vida. A única coisa que não posso mais é ficar sem você.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Primavera (Cecília Meireles)


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Ao menino dos olhos de ouro


"Quem é que liga no meio da noite
E diz que está sozinha
Quem é que nos meus braços fala que é só minha
E chora de emoção na hora do prazer
(...)
Tem nada a ver
Você é quem está fugindo da verdade
Parece que tem medo da felicidade
Você diz que não
Seu corpo diz que sim
(...)
Diz que não me quer
Mas vive atrás de mim"


- Estavas linda hoje... Sempre fostes, mas hoje estavas encantadora. Como nunca.

- Estou feliz. Acho que deve ser essa felicidade que tanto pareceu inalcansável e neste instante me bate à porta.

- Agradeço pelo presente, mas continuo insistindo que não precisavas disso. Gosto de ti e estar assim já é o bastante para mim. Agora entendo o porquê de tantos sorrisos soltos. Posso perguntar se pertenço a essa felicidade?!

- Claro. Devo a ti, garoto dos olhos de ouro. Devo todos os meus últimos bons sentimentos. Um ano atrás olhastes para mim com estes mesmos olhos que ainda hoje me fazem tão bem; por isso mesmo venho te agradecer. Por teres dado o primeiro passo e todos os outros também - mas isso são outras palavras. Durante este ano, fostes tu o responsável pelas minhas escolhas, o dono dos meus pensamentos e até dos meus medos. Se me decepcionei, foi quanto a minhas grandes expectativas. "Por causa disso me permitia modelar em minha cabeça uma imagem sua apenas rascunhada, aberta aos caprichos do destino". Mas isso, a partir de hoje fica no passado junto com as lágrimas que derramei por ti...

- Ei, não sejas boba. Sabes que não te prometo nada. Gosto da tua companhia, seja para o que for. Me fazes bem.

- Eu te gosto assim. Desse jeitinho. Sem compromisso, mas com os telefonemas no meio da noite me pedindo um pouquinho do meu tempo por que tu precisas desabafar. E esses teus desabafos vêm sempre em forma de carinhos. São dramas por falta de reciprocidade e pelas vezes que estive recebendo outros beijos que não os teus. Quero que continues insistindo, mas em me querer. Preciso que não desistas de mim.

- Mas é que gosto de ti e te quero só para mim. És minha. Sempre fostes. Sempre serás. Me entendes?! Não gosto de te ver desperdiçar-te em outros braços. Sempre haverá tempo para quem gostamos e se a gente gosta tem que fazer por onde acontecer. Tem que ligar, mandar mensagem, falar sobre saudade e abraçar sem medo, ou vergonha, ou pressão, ou qualquer outra coisa que venha a destruir o que a gente construiu.

- Eu sei. Por isso dediquei e ainda dedico boa parte do meu tempo a ti e em retribuição, tu - que sempre esteves por perto - me proporciona os melhores momentos. É por essa vontade de sentir - que nunca é saciada - de saber que qualquer coisa ao teu lado vale à pena. Pelo seu sorriso sincero e pela preocupação comigo e com meus problemas. É pela última vez, pela primeira, pelas próximas, pelas notas tocadas e pelos olhares de ouro. É pelo cheiro - os dois - do perfume e da sua pele. É por você.

(Um ano de você)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Entre Pedro e Parede (Maycoll Silveira)


Não tinha lugar, não tinha chão
Luz de poeira pintando o som
Outros caminhos, outro novo lugar
Sorrisos e olhares se perdem, se encontrar
Entre Pedro e a parede, eu
Sentimentos, junção do dele e o meu
Poesia se fez, tatuagem pra marcar
Madrugada fria, jeito delicado de fumar
História de quem não acredita em destino
Homens ainda pouco tempo atrás que eram meninos
Entre Pedro e a parede, vontade de ficar
Deixar o tempo correr solto, dormir e não acordar
Viagem de coisa que fica pra sempre na gente
Lembrança doce, coisa que nem sempre se sente
Relógio que bipa, e o tempo não parou
Juntar restos, guardar no boldo o que ficou.
Entre Pedro e a parede, espaço sem fim
Sentimento que cresce, coisa boa guardada em mim.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Todo mundo tem um anjo


"I'm strong even on my own,
but from him I never want to part
He's been there since the very start,
my angel Gabriel"


Gabriel é desses meninos, que de tão menino, se transforma em homem. E é desses homens, que de tão homem, se transforma em menino outra vez. Gabriel tem o riso alto, daqueles que enchem ouvidos e nos faz rir mesmo quando não se deve. Gabriel tem o jeito manso de quem entendeu muito bem o que os poetas um dia quiseram dizer com: “Carpe diem!”. E ele aproveita. Cada segundo, cada instante, até mesmo os ruins, porque Gabriel sabe, que dos bons momentos se levam as alegrias e dos maus a sabedoria.
Gabriel nunca reclama da vida. Nunca diz que podia ter feito melhor ou que poderia não ter feito. Gabriel nunca se lamenta, nunca sofre, e se sofre, é calado, é forte. Ele é desses boêmios, que se delicia com cada novo dia. Desses românticos incuráveis, que abre a porta do carro e faz do sentir poemas de amor. Gabriel é piegas, e é raro.
Gabriel é luz em dias escuros. É sol em dias de inverno. É canto alto em silencio profundo.
Gabriel não mede a força que tem, e se soubesse o quão forte é, talvez nem fosse. Sua força não é só sua, é minha, é nossa. Metade de mim é Gabriel, e a outra metade, a que é minha, é dele. Gabriel cuida de mim, e se não fosse por ele, talvez eu não estivesse por aqui. Gabriel é irmão, é amigo, é pai, e é anjo tal qual seu nome. E quando minha mãe me diz: “Gabriel tem esse nome por causa do anjo, eu sorrio e digo:
“- Não, o anjo tem esse nome por causa de Gabriel!”

*...ou pelo menos deveria ter sido!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Esperando por você (Circuladô de fulô)


A cada dia que se passa sem você
A cada dia que aumenta a vontade de te ver
Eu canto versos de saudade e prazer
Eu canto, eu falo, eu falo e canto que vontade de te ter
Mas eu me pego entre quatro paredes
Sozinho no quarto criando ilusão
Olhando para o teto, sonhando acordado
Preso no silêncio e na solidão
Será que é você que me faz ser assim
Maluco, maroto, pobre sonhador
Sem a certeza das horas que vêm
Chorando sozinho toda a minha dor
Toda a minha dor
Mas se um dia você disser que sim
Talvez as coisas vão mudar para mim
Estou esperando por você, esperando por você
estou esperando por você.
Tô procurando alguma forma de aceitar
Eu não me canso e nunca vou deixar de procurar
Talvez deva fugir ou me esconder em algum lugar
Pra ficar bem distante, bem longe do teu olhar

Quando setembro vier (Caio F.)


De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos logo rumo à ilhas Cíclades.
Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim.
Na sala, encontrei a mesa posta para o café — leite e pão frescos, mamão, suco de laranja, o jornal ao lado. Comi bem devagarinho, lendo as notícias do dia. Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul. Na página policial, um debate sobre a espantosa diminuição da criminalidade. Comi, li, fumei tão devagarinho que mal percebi que estava atrasado para o trabalho. Achei prudente ligar, avisando que iria demorar um pouco.
A linha não estava ocupada. Quando o chefe atendeu, comecei a contar uma história meio longa demais, confusa demais. Só quando ele repetiu calma, calma, pela terceira vez, foi que parei de falar. Então ele disse que tinha acabado de sair de uma reunião com os patrões: tinham decidido que meu trabalho era tão bom, mas tão bom que, a partir daquele dia, eu nem precisava mais ir lá. Bastava passar todo fim de mês, para receber o salário que havia sido triplicado.
Desliguei um pouco tonto. Então, podia voltar a meu livro? Discreta e silenciosa como sempre, a empregada tinha tirado a mesa. No centro dela, agora, sobre uma toalha de renda branca, havia rosas cor de chá, aquelas que Oxum mais gosta. No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.
Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. Os passaportes estavam prontos, nos encontraríamos no aeroporto: São Paulo/Roma/Atenas, depois Poros, Tinos, Delos, Patmos, Cíclades. Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei. Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A sagração da primavera, minha mala estava feita. Peguei os originais, a gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.
PS — Andaram falando que minhas crônicas estavam tristes demais. Aí escrevi esta, pra variar um pouco. Pois como já dizia Cecília/Mia Farrow em A cor púrpura do Cairo: “Encontrei o amor. Ele não é real, mas que se há de fazer? Agente não pode ter tudo na vida...” Fred e Ginger dançam vertiginosamente. Começo a sorrir, quase imperceptível. Axé. E The End.