domingo, 22 de março de 2009

Eles combinam


"-Eles combinam.
-Cale a boca T!
-Tô falando sério."


Eu te conheci e você poderia ter sido bem melhor se não fossem as rosas;
Continuamos a nos falar e poderia ter sido bem melhor se não fosse a falta de palavras;
Nos reencontramos e poderia ter sido bem melhor se não fosse a outra;
Nós combinamos e poderia ter sido bem melhor se não fosse a certeza de que não daria certo;
O acaso. E poderia ter sido bem melhor se não fosse o outro;
O encontro. E não poderia ter sido melhor.

quinta-feira, 12 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Silêncio (Tati Bernardi)


"O silêncio me assusta porque ele diz a verdade"

Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão imprópria, inadequada, boba. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceita pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável. Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. Minhas histórias acabam sempre no egocentrismo ou preconceito. Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego. Minha voz doce assusta. Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim. Falar do que sinto é, na hora, desintegrar com seu olhar. Então fico me perguntando sobre o que deveria dizer, se só sei o que sinto (...) Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida dele, coitada de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais uma delas. Se provoco, eu que provoque sozinha porque ele não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Sobre minha reportagem, nem quis ler. Meu trabalho nunca foi e nunca será da mulher dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menina. Quieta. É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba. Se eu for mulher, mulher é um saco. Se eu for homem, homem só existe ele. Se eu for criança, fale com sua analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? Pode, desde que, depois, eu tenha estrutura para ver toda uma massa desistente desabando sobre meu sofá pequeno. Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontinhos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ele já não está mais. Se repito, quase explode. Se digo uma, sou boa de ser guardada em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louca. Se explico, sou louca. Quieta. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto (...) E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir(...)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sabe a garota do copo de água? Ela queria você


"- Sabe a garota do copo de água?
- Sei.
- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?"


Queria ver você entrando por aquela porta com cara de desconfiado. Queria contar histórias absurdas sobre os meus medos e ouvir você dizendo o que eu tenho que fazer para superá-los, mesmo que eu não siga os seus conselhos, nem concorde com eles. Queria ver você durmindo. Ver você me pedindo beijos, me pedindo abraços. Queria ver você dizendo que tem que ir embora, mesmo querendo ficar e queria que você me visse insistindo para você não ir. Queria que o tempo não passasse quando eu estivesse com você e queria voltar no tempo. Queria mais tempo. Queria as horas antes de você ir. Queria os 28 minutos que você não me deu. Queria meu cheiro em você. Queria seu cheiro. Queria olhares, palavras, sorrisos, por quê's. Queria música. Queria telefones não atendidos. Queria textos lidos. Queria atenção. Queria explicação. Queria você para pôr ordem nessa bagunça.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O amor esquece de começar (Fabrício Carpinejar)


Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz.
Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha...

Antes de partir (Caio F.)


"Sorria, você tá comigo!"

Olha, antes de o ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe? Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? (…) Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e “desamar” era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender (…) Fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas.

Ruas vazias de você


“Por você parei meu tempo, e por mim te deixo no passado.”

Gosto dessa sensação. De alguma forma o nosso fim me trouxe algo de bom. Já não reconheço todos aqueles sintomas de saudades que me consumiam. Nem mesmo as manhãs, que nunca foram as melhores, após sonhos meus onde você teimava em permanecer.
E então você surgia, com aquele seu jeito de encontrar minhas fraquezas para que eu voltasse a reconhecê-las. Afinal, você sempre soube onde elas estiveram mesmo me conhecendo tão pouco. Suas afirmações me fizeram crer em mentiras, suas mentiras. Algo que deveria pertencer somente a você, mas que mesmo assim nunca foram mantidas contigo, passando a ser tão minhas quanto suas.
Então eu parei de esperar que, num desvio do destino, você me dissesse qualquer coisa que me fizesse entender, pois eu não entendia. Entender todos os teus motivos que te faziam me pedir para te esperar, e todos os meus motivos que faziam com que eu te esperasse.
Eu já posso enxergar onde foi que eu errei, e enxergo seus erros também! Acontece que um dia minha vontade chegou ao fim, aquela de te explicar que você errava, me magoava, mas eu te amava. E que por mais que eu acreditasse que era um sentimento recíproco, você sempre foi ocupado demais para demonstrá-lo. E então, eu apenas fiz o que você tanto me mostrou, apenas segui o caminho que você me ensinou a seguir. E não vou voltar atrás, nem ao menos parar em qualquer esquina para te pedir para voltar.

P.S.: Apareça!

Essa vontade que não passa!


"Promete que nos veremos logo
Promete que isso não vai ficar assim
Não consigo suportar a falta do seu olhar"


Era pra gente ter ficado juntos ontem, sabe?! Pelo menos ontem eu achava que sim.
A gente se conhece pelas nossas faltas, pelo que poderia vir a acontecer e pelas danças.
A gente dançou no mesmo ritmo naquela sala enorme que só cabia nós dois, apesar do passo constante e simples.
Eu menti para os outros para poder te encontrar. Eu minto para mim mesma para poder não te esquecer e para que você não se torne só mais um. E nem preciso de tanto esforço assim para deixá-lo dentro de mim - como já era de se esperar graças aos fatos sucedidos.
Eu finjo não sentir saudade, você não faz questão de esconder; eu esqueço, você lembra; eu lembro, você some; eu quero, você faz; eu espero, você promete; eu faço, você gosta; eu escrevo, você lê; eu minto, você diz; eu chamo, você vem.
Queria ter tido outras oportunidades. Queria que o destino fizesse as pazes comigo; que ele fosse meu amigo e me deixasse ficar com você. Sem me importar com o resto do mundo. Tal qual aquela noite. Tal quais as noites que pude estar ao seu lado.
Não consigo me esquecer de você apesar dos outros amores. Ainda é você com quem eu sonho. Quem eu esperava que estivesse naquela festa. Quem eu quero para brigar, para brincar de ser mulher fingindo ser menina e agarrar com uma vontade de ser pra sempre sua.