sábado, 31 de janeiro de 2009

Todo mundo vai embora (Tati B.)


Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. Talvez essa seja a pior coisa do mundo.
Ele vai embora, sempre, quando eu preciso de quinze minutos de silêncio complementar à minha entrega, odeio o desespero dele por banhos e a sua ansiedade curiosa pelo que vem depois. Que se dane o depois, eu sou agora, ou pelo menos era.
Ele vai embora, sempre, quando o parágrafo passa de três linhas, o pensamento dele ultrapassa meus olhos, o som se perde da minha boca para qualquer outro canto do mundo que não tenha seus ouvidos e ele olha fixamente para qualquer outra coisa que não seja a minha existência. Sempre a mesma cara de tédio e de busca pelo resto que não se repete ou não se prolonga.
Ele sempre vai embora quando eu queria que ele se perdesse um pouco, rasgasse a agenda, lançasse o celular no rio, desligasse todos os toques, luzes e sinais de que há todo o resto. Esquecesse do sono, do livro, da planta, das lembranças. Ele sempre vai embora do meu mundo quando eu só queria que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é.
Ele sempre vai embora pra descobrir quem ele é, ou para lembrar que ele é o mesmo de sempre que não sabe quem é, ele sempre vai embora antes da gente ser alguma coisa juntos.
Vivo com essa sensação de abandono, de falta, de pouco, de metade. Mas nada disso é novidade. Antes dele, teve o outro, o outro que continua indo embora para sempre porque nunca foi embora pra sempre. Eu não sei deixar ninguém partir, eu não sei escolher, excluir, deletar. São as pessoas que resolvem me deixar, melhor assim, adoro não ser responsável por absolutamente nada, odeio o peso que uma despedida eterna causa em mim. Nada é eterno, não quero brincar de Deus.
O outro foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais, foi embora a segunda porque ficou tarde, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre, foi embora durante alguns longos anos porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas. Ele me chamou de demanda a última vez que foi embora pra sempre, mas pra sempre pode durar duas horas, dois anos ou duas encarnações. A gente sempre se despede lembrando-se da música do Chico que diz “o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio”.
Antes dele teve ainda um outro que sempre ia embora na espera de que existisse algo melhor do que eu, mas não ia definitivamente porque não é todo dia que aparece alguém melhor do que eu. Um dia apareceu, ela até que é bonita e tal, não parece tão confusa e intensa e talvez mediocridade seja tudo de que uma pessoa precise para ser feliz. Mas a última vez que ele foi embora, antes me deu um abraço de quem nunca saiu do mesmo lugar. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito porque vai embora ficaram pra sempre comigo.
Hoje meu novo amigo foi embora, não pra sempre, mas um segundo pode ser pra sempre se pensarmos grandiosamente, e ele me dá vontade de pensar grandiosamente. Fazia tempo que alguém não ficava tão calado enquanto eu apenas existo, fazia tempo que alguém não ficava tão perdido só porque me encontrou, fazia tempo que eu não me olhava no espelho e sorria, sabendo que sim, sim, sim, sou bonita ora bolas! Sou interessante! Da onde eu tinha tirado o contrário nos últimos meses?
Todo mundo chega na sua vida. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam. Talvez essa seja a melhor coisa do mundo.
Como naquele texto que não lembro, daquela pessoa que não lembro, e sobre o qual você me contou de um jeito que eu nunca mais vou esquecer, no final a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, lembrando de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo.

Eu estava certa


"Tudo que morre fica vivo na lembrança
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça
Mas antes que eu me esqueça,
Antes que tudo se acabe
Eu preciso, eu preciso dizer a verdade
Oh, oh, oh ...
É impossível, é impossível esquecer você
É impossível esquecer o que vivi
É impossível esquecer o que senti"


E eu estava precisando de você, eu acho. Precisava dar um ritmo diferente a minha vida. Precisava sentir saudade de alguém que realmente merecesse minha saudade e sentisse minha falta. Você sorriu pra mim ou talvez tenhamos sorrido os dois: um para o outro. E você me surpreendeu quando ficou tempo suficiente para eu saber que ia ser você. E aquela dança foi boa o bastante para me provar o quanto você merecia aquele beijo.
Fui dormir pensando em você e acordei lembrando-me de você. De você e do seu beijo. E você me surpreendeu ainda mais quando ligou pra mim. Ouvir sua voz foi uma garantia de que eu estava certa. Pelo menos uma vez, uma única vez. Eu estava certa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Apesar de, é você


Você nunca me deu os parabéns quando eu tirava boas notas ou mesmo no dia do meu aniversário, você nunca me perguntou se tinha tarefa de casa pra fazer ou provas pra estudar e quando eu pedia pra você me fazer perguntas pra eu ter certeza de que tinha aprendido você inventava uma desculpa qualquer. Quando não queria comer você não insistia, quando queria assistir o dia todo você não reclamava, quando comecei a escolher os meus próprios perfumes você se afastou mais ainda de mim, mesmo que nunca tenha sido tão próxima. Quando eu comecei a namorar você não soube, quando eu comecei a cresceu você não viu. Quando eu precisei de palavras não foi sua voz que eu ouvi. E quando me apaixono você é uma das últimas pessoas a saber. Mas quando eu era pequena, era você quem cuidava de mim quando eu passava mal nas viagens, era você quem aguentava todas as minhas birras e as minhas manias. E é você que dá tudo o que eu tenho hoje e quem nunca me negou um pedido, apesar de ter negado todos os abraços. E é você que finje não se importar comigo, mas morre de saudade quando não estou por perto.
Tô começando uma fase importante da minha vida agora e o meu presente pra você vai vir em forma de retribuição por todas as coisas boas que você já me deu. Espero que possa ver de perto.

P.S.: Eu sei por que a gente não se entende. Você também sabe. 59 anos é muito tempo. Feliz aniversário!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Por não estarem distraídos (Clarice L.)


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.
No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E cadê o brilho?


"Nada vai mudar entre nós. Como eu sei? Eu só sei. Tudo vai permanecer igual, afinal, não há nada a fazer.
Eu não nego, eu me entrego, você é meu grande amor, e hoje eu vou te dizer "eu te amo"
Eu imploro, eu te adoro, você tem meu coração a bater pra você mais uma canção."


Tô cansada dessa nova vida que virá. Ainda nem veio e eu já nem gosto dela. Tô acostumada com minha vidinha de sempre, com minhas amigas de sempre, com as reclamações de sempre.
Agora eu vou ter pra onde sair, mas quem vai se arrumar lá em casa? Tenho restaurantes incríveis com comidas incríveis, mas quem vai fazer pipoca pra mim? E tenho milhares de salões de beleza que me faríam sentir uma princesa, mas não tenho ninguém pra ir pintar a unha comigo. Meu esmalte fica assim, meio sem cor, sabe?!
E era até bom não ter nada pra fazer antigamente, por que eu tinha tempo de sobra pra não fazer nada junto delas , mas agora não tenho mais tempo, nem elas.
E ninguém sabe me fazer rir um sorriso tão verdadeiro. Nem me estressar com tanta frequência. Nem 5 segundos depois de fazer uma comentário sem graça vai vir com a cara mais sínica do mundo me pedir desculpas. Nem entender a minha falta de demonstrações de afeto.
Com elas minhas verdades são inteiras e minhas idéias - que às vezes parecem meio estúpidas - são sonhos concretos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Amizade é pr'essas coisas


O tempo é mágico

Meus 19 anos


"Feliz aniversário
Envelheço na cidade"

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sobre todo esse tempo

"Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex (...) talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris (...) talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada."

O destino nos apresentou um ao outro e um rompante de paixão balançou meu coração, me fez sentir algo que jamais imaginei. Passado o ardor da conquista, acomodei-me com teu carinho e sua atenção. Suas palavras chegavam sempre como um presente. Mas talvez eu não tenha feito por onde pra prender sua atenção. Talvez seja minha culpa. Talvez nossa história nunca tenha um final feliz. Ou talvez esse seja o nosso ponto final pra sempre. Mas tudo isso são suposições. O que há de concreto, de certo, é que as coisas mudaram. Não estão como eram antes. Eu esperava, você aparecia, você sumia e eu continuava te esperando. Sempre com a mesma esperança absurda que você nunca desistiria de mim. Que estava esperando pelo tempo certo, mas esse tempo nunca chegou.
Hoje, você continua sumindo e aparecendo, mas cansei de esperar, de nunca saber nada sobre você, da sua falta de promessas.
Já pertenci a outros enquanto te buscava e você pertenceu a outras enquanto me via te buscar.
Atolada em meus medos, afundando em minhas descobertas, não consegui levar você até onde eu fui porque você nunca quis estar comigo.
Sem você estive sozinha, criando ilusões no silêncio das suas palavras. Sem a certeza das horas que viriam.
Minhas lágrimas, incontáveis lágrimas, você não ajudou a secar. Meus sorrisos, minhas felicidades, você não quis comemorar e meu mundo se afastou do seu.
Hoje eu nem sou mais eu. Mudei meus gestos, minhas manias, minhas poses, palavras e sentimentos. E você nem sabe por quê. Mas se um dia você disser que sim, talvez as coisas mudem pra mim.

3 anos, 6 dias e 9 horas é muito tempo sem você.