terça-feira, 25 de novembro de 2008

Se te amo, não sei! (Gonçalves Dias)


"Amar! se te amo, não sei.
Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.

Se amar, é sonhar contigo,
Se é pensar, velando, em ti,
Se é ter-te n’alma presente
Todo esquecido de mi!

Se é cobiçar-te, querer-te
Como uma benção dos céus
A ti somente na terra
Como lá em cima a Deus;

Se é dar a vida, o futuro,
Para dizer que te amei:
Amo; porém se te amo
Como oiço dizer, – não sei."

domingo, 23 de novembro de 2008

Motivo (Cecília Meireles)


"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

É que eu ainda te quero


"...Era tão estranho te olhar dentro dos olhos
E ver na minha frente tudo que eu sempre quis..."


De onde vem esse cheiro?! Ele vai me matar. E as coisas deveriam ser mais simples.
Eu queria ver você, você vinha até mim. Eu queria seu beijo, você me beijava. Eu quero ouvir sua voz, mas você não me liga mais.
Agora você parece ter desistido de tentar me fazer mudar.
Minhas roupas não têm mais o mesmo valor e o meu sorriso não tem sentido. Não existe mais espera e mesmo assim ainda espero. Tenho vontade de te ligar e perguntar se você está feliz agora, se ainda me quer, se ainda pensa em mim, se tem saudade das minhas palavras, se esperava ancioso a minha ligação. Queria que me ligasse e perguntasse se eu ainda sou a mesma menina boba de antes, se eu ainda tenho os mesmos sonhos e perguntasse se eu poderia, dessa vez, incluir você nos meus planos.
Vai ser sempre assim. Você aí e eu aqui porque eu não vou mudar e você não vai aceitar. Mas tudo bem porque as coisas não são simples mesmo.
E eu ainda continuo te querendo como sempre te quis e acho que sempre vou querer. E eu ainda continuo negando como sempre neguei e acho que sempre vou negar.
Até quando você vai fingir que acabou? Até quando vai achar que pelo fato de eu não te ligar, eu não te quero?
Eu te quero. Então você tem que me querer. Simples como tinha que ser. Deveria.
O meu andar está estranho e você não está aqui para consertá-lo. Minha noite está muito longa e você não está aqui para fazer o tempo passar depressa. Meu sono não chega e você não está comigo para me colocar para durmir.
Eu gosto de tudo que me lembra você. Vou gostar sempre e já gostava de você antes mesmo de gostar de mim.
E eu poderia estar feliz. Poderia ser feliz. Poderia, mas eu não sou. Não sou quase nada desde o último olhar de verdade que você me deu.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sobre o meu (des)amor por você


Nunca perdi um segundo do meu dia para escrever algo sobre você. Absolutamente nada, nem mesmo uma frase, que mais tarde poderia ser apagada. Sempre me perguntei como eu pude não gostar de você, não conseguir ser mais do que eu fui pra você, não fazer de você alguém mais significativo em minha vida, não sentir meu coração pulsar de forma acelerada quando você se aproximava, não sentir absolutamente nada perto do que você ousava sentir por mim.
Você, que sempre esteve por perto, que sempre me mostrou o lado feliz da minha vida, que compartilhou seus bons momentos comigo, e sempre recordava os dias em que eu te fiz feliz, mesmo sem gostar de você. Eu te observava com total fixação, sem entender porque eu não era capaz de retribuir todo esse amor, e quando você me perguntava o motivo de tanto te olhar, eu apenas respondia que não havia um motivo.
Busquei em todos os lugares, em todas as pessoas, até encontrar alguém que se encaixaria em tudo o que eu considerava necessário, e esse alguém sempre foi você. Você, que mudou por mim, que me amou, que me quis, que me fez sentir única e não só mais uma. Você, que eu não soube valorizar, que eu não soube amar. Te troquei por quem talvez não trouxesse consigo todas as qualidades e defeitos que eu buscava, alguém completamente diferente de você, alguém que eu não esqueço, alguém que deveria ser você.

Sobre o seu desconhecimento da minha razão

Existiam vestígios de um passado recente e oculto onde eles estavam. Algo preservado em segredo, em uma espécie de caixa onde se guardam cartas, daquelas localizadas do lado de dentro, algo que apenas pertencia a ela.
- E eu ainda não fui capaz de compreender o porquê do nosso ponto final. Existem certas verdades que meus lábios ainda não conseguem pronunciar, coisa que eu não sei como dizer olhando para você, talvez seja só questão de tempo. – Ela sempre repetia.
Ela não entendia. Ele transformava suas palavras em enigmas, tentando fazer com que ela descobrisse tudo o que ele sempre deixava para contar no amanhã, ou quem sabe nunca. E de certa forma, ela acreditava em uma desconfiança que aparentemente ele mantinha.
Completamente iguais e nitidamente diferentes. Uma junção que sempre prometeu um encaixe perfeito, se não fosse a caixa escondida, o segredo guardado, o medo que a acompanhava. Fatores que por muito tempo ela se esforçou para destruir; visto que o parágrafo deles, que por vontade dele tornou-se um ponto final, não se transformava em pontos e vírgulas para reiniciar o que um dia começou.
Meses se passaram, e o distanciamento que surgiu entre eles, chegou ao fim. Iniciando novamente todos aqueles questionamentos. De alguma forma, já era capaz de presenciar em seus olhos, que ela sabia que o dia de abrir a caixa que guardava seus segredos se aproximava.
Pedidos negados, vontades escondidas, confusão nítida. Foi assim que se determinou por um tempo considerável as respostas dele, que por vezes demonstrava indiferença a ela, outras uma saudade incontrolável, tudo sempre acompanhado de uma dose de confusão.
Acabou, não existiam mais perguntas por parte dela, não havia mais insistência, não existia fragmento algum do que um dia ela pensou que não iria sentir falta. E foi aí que tudo o que era guardado, aparentemente seria completamente exposto.
- Lembra? Você insistia e sempre se importou em descobrir o que eu teimava em não revelar.
- É, você nunca esteve pronto para isso.
- Ainda não estou!
- Então porque me procurou?
- Apenas para não te deixar esquecer que independentemente do que eu não consiga dizer, existem palavras que sempre fogem de mim para chegar até você.
- Acredito que as desconheço.
- Então apenas as esqueceu, pois como sua insistência, eu sempre as repeti para você.
- Me faça lembrar então!
- Nada mudou, mas eu ainda amo você.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Espatódea (Nando Reis)


Minha cor
Minha flor
Minha cara
Quarta estrela
Letras, três
Uma estrada
Não sei se o mundo é bão
Mas ele ficou melhor
Quando você chegou
e perguntou:
Tem lugar pra mim?
Espatódea
Gineceu
Cor de pólen
Sol do dia
Nuvem branca
Sem sardas
Não sei quanto o mundo é bão
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim
Não sei se esse mundo está são
Mas pro mundo que eu vim já não era
Meu mundo não teria razão
Se não fosse a Zoe

Felipe, valeu pela foto!

sábado, 1 de novembro de 2008

A quase bailarina (Camila Meneghetti)


"...Vem vestida de ouro e poeira
Falando de um jeito maneira
Da lua, da estrela e de um certo amor
Que agora acompanha seu dia, e pra minha poesia é o ponto final..."


Ela era uma quase bailarina, a poesia completa, a nota final, o último segundo, o suspiro. Tinha o desejo de ter o mundo, mas ter uma parte DELE bastava, parte, porque ele nunca fora inteiro. Talvez por ser covarde demais, dividido entre histórias, assassino de si próprio, talvez por isso se conhecer seria a morte, talvez ELE já tenha morrido e se dividir é um meio de viver em cada pessoa, de sempre existir, de sempre incomodar. Entendem, não bastava fazê-la sorrir uma vez, como não adiantava só uma vez ele ver aquele olhar de admiração, precisava ser sempre, precisava ser só dele, mesmo que seu coração estivesse em várias. Claro que ela tentava, em vão, mas ao menos tentou uma, duas vezes acabar com as alegrias internas, mas ela não sabia amar despedaçado. Abandonar em algum canto todo aquele sentimento, todo o desejo de dividir o cotidiano e fazer disso uma história real, ela não podia mais viver pelos cantos, guardada para o tempo. Ele se preocupava com isso, a guardava para ter quem conversar de verdade de noite, quando mais ninguém entende sobre o grande mistério de enlouquecer, como os dois vinham fazendo. Era esse grande jogo que a incomodava, as faces desconhecidas que por vezes enxergava nele, no fundo nunca sabia se aquele que a abraçava, a controlava era alguém de verdade, ou se era mais um personagem ensaiado, guardado e usado ás vezes. Ele sabe que um dia vai perdê-la, ela também sabe,mas cuida para não se perder.